A água em São Paulo vai realmente acabar?

Embora projeções apontem que, no ritmo atual, as represas secariam em cinco meses, a tendência é que, antes, haja maiores restrições ao uso da água para evitar que isso aconteça. Com isso, a água não acaba, mas o fornecimento deve ser reduzido. Para priorizar consumo humano, agricultura e indústria podem ser deixados em segundo plano

A água vai ficar mais cara com a crescente escassez?

Já ficou. Em janeiro, a Arsesp (agência de água e energia de SP) autorizou cobrança de sobretaxa de clientes que gastarem mais neste ano do que antes da crise. Agora, o governo estuda aumentar ainda mais a tarifa (já reajustada em dezembro) e endurecer a cobrança da sobretaxa

Qual é a previsão de chuva para os meses chuvosos de 2015?

No final do ano passado, a previsão era de que no verão de 2015 choveria dentro da média, mas as chuvas não têm atingido os reservatórios. Diante deste quadro, as estimativas têm sido reduzidas para abaixo da média histórica

Chuvas no Cantareira entre dezembro e março

(período chuvoso, e mmm)

Como a falta de água vai afetar a vida do cidadão?

Diante de um quadro extremo, o cidadão poderá ter acesso à água apenas em um horário restrito do dia. Comércios poderão ser afetados também. Já é possível encontrar na Grande SP restaurantes que fecharam seus banheiros para os clientes, por exemplo

A crise será severa a ponto de precisar evacuar São Paulo?

Não há um plano para evacuação em massa. Mas, para especialistas, a água vai ficar mais cara em parte do Sudeste. Com isso, as empresas poderão buscar outras cidades. No entanto, especialistas lembram que as variações climáticas atingem todo o país

As medidas tomadas para economia de água podem trazer riscos à saúde?

Se normas técnicas forem seguidas à risca, não. Mas, quanto maior a crise, maiores os riscos. No caso de rodízio, eventuais falhas poderão permitir a contaminação. E quanto mais perto do leito do reservatório, maior a chance de a água coletada ter metais pesados

Há oferta suficiente de água mineral?

Segundo representantes do setor, sim. Por causa de investimentos feitos nos últimos anos, a indústria de água mineral opera com capacidade ociosa. No Sudeste, teria até como triplicar a oferta

Até agora, o que foi feito pelo governo de São Paulo para combater a crise?

Reduziu a pressão da água distribuída e a quantidade captada em rios e reservatórios e criou um bônus e uma sobretaxa para incentivar a redução do consumo, além de lançar campanha publicitária e um plano de obras. Alckmin também pediu ajuda ao governo federal. Foi criticado, porém, por falta de planejamento e de agilidade

SP está enfrentando a pior crise hídrica de sua história?

Sob muitos aspectos, sim. O índice que mais dá conta do tamanho da crise é o do volume de água que chega ao reservatório do Cantareira, o maior da Grande São Paulo
(clique aqui para ver o gráfico)

São Paulo já teve racionamento de água?

Sim. Ao menos quatro vezes no último século, a Grande São Paulo passou por racionamentos, em que bairros ficavam sem água por períodos de 24 horas. Ocorreram nos anos de 1969, 1985, 2000 e em 2001

Entrada de água no sistema Cantareira (em m³/s)

Medidas mais extremas como dessalinização e transposição de rios são eficazes?

Ainda que caras, elas podem ser benéficas. Porém, esbarram na demora até o início da operação. Até que grandes obras como transposição de rios (que podem causar impactos ambientais e sociais) fiquem prontas, a situação será muito pior do que a atual

A crise hídrica vai afetar a oferta e os preços no comércio?

Sim. Se a crise piorar, negócios pequenos que não tenham como investir em melhorias tendem a reduzir a oferta. Negócios maiores, que consigam implementar mudanças, devem repassar os custos extras para os preços oferecidos ao consumidor

Quanto custariam ações de médio e longo prazo para evitar novas crises em SP?

O governo de SP e a Sabesp devem gastar cerca de R$ 8,8 bi —R$ 6 bi para reduzir vazamentos, R$ 2,6 bi para a construção do sistema São Lourenço e R$ 200 milhões para o reflorestamento de 3% de mananciais dos sistemas Cantareira e Alto Tietê

O racionamento de água vai mudar o hábito de consumo daqui em diante?

Para especialistas, a crise pode servir para que a população ganhe uma consciência sobre o uso de água, assim como ocorreu após o racionamento de energia de 2001, quando os brasileiros trocaram suas lâmpadas por outras mais econômicas, por exemplo

Quais as regiões mais afetadas pela crise?

Aquelas atendidas pelos sistemas Cantareira —região central e parte das demais zonas da cidade, além de alguns municípios da Grande SP— e pelo Alto Tietê, que abastece principalmente a zona leste (veja mapa ao lado) e tem interligação com outros sistemas mais restrita

O que o governo de SP tem na manga para evitar o colapso do Estado?

Em caso de agravamento da crise, o governo pode instituir o rodízio (abastecimento alternado entre regiões) e ampliar a sobretaxa. Outra alternativa é buscar novas fontes de captação até então não utilizadas, como a poluída Billings. Pode também obter financiamento e acelerar seu programa de obras

O que é possível fazer no curto prazo para mitigar essa crise?

Segundo especialistas e o presidente da Sabesp, a grande aposta no curto prazo é reduzir o consumo. Campanhas de conscientização, incentivos financeiros e sobretaxa também são indicados por especialistas, além da captação de água da chuva

Quanto SP desperdiça de água? Quanto custaria para reduzir essa perda a níveis aceitáveis?

As regiões atendidas pela Sabesp perdem em vazamentos 19,5% da água retirada, tratada e distribuída. Para reduzir a 16,9%, a Sabesp calcula que serão necessários R$ 6 bilhões ao longo de dez anos

O paulistano consome muita água?

Comparando com a média do Brasil, o paulistano não gasta muita água (veja gráfico). Mas ainda gasta mais do que o considerado suficiente pela Organização Mundial de Saúde (110 litros por dia)

Fontes: ANA, Daee,Ministério das Cidades, Sabesp, Water Resources Control Board e especialistas

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