Rafaela da Silva de Jesus | Histórias de vítimas do novo coronavírus - Equilíbrio e saúde - Folha de S.Paulo

Aqueles que perdemos

Rafaela da Silva de Jesus

Passou os cinco últimos anos em busca do sonho de tornar-se mãe

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foto de Rafaela da Silva de Jesus

Rafaela da Silva de Jesus, 28

professora

faleceu em 1.abr.2020

A professora Rafaela da Silva de Jesus, 28, passou os cinco últimos anos em busca do sonho de tornar-se mãe. Fez tratamentos médicos de fertilização e há nove meses conseguiu o resultado esperado: estava grávida da sua primeira filha. Na quarta-feira (1º), sete dias após o nascimento de Alice, Rafaela morreu vítima da Covid-19 na Bahia. Nos últimos anos, a vida da professora tinha sido um constante vaivém. Ela percorria os 280 km de estrada que separam a Itaju do Colônia, cidade do sul da Bahia, e a vila de Trancoso, em Porto Seguro. Na primeira, ela dava aulas para classes do ensino infantil na rede municipal. Na segunda, ajudava o marido, Erisvaldo Lopes dos Santos, 47, na Bigotur, empresa de transfer turístico. Em 16 de março, Rafaela e o marido viajaram para Itapetinga, cidade do sudoeste baiano onde mora parte da família dela, porque queriam que a filha nascesse em um hospital particular. Assim que chegou, o casal foi procurado por uma equipe da vigilância epidemiológica da prefeitura, que orientou quarentena pelo fato de eles terem vindo de uma região com casos registrados do novo coronavírus. Só saíram para a hora do parto, que aconteceu por cesariana em 25 de março. Mãe e filha tiveram alta sem registro de problemas de saúde, mas, cinco dias depois, Rafaela começou a sentir febre baixa, em torno de 37 graus, e falta de ar. Foi levada para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), isolada, intubada e ligada a um respirador mecânico. Como em Itapetinga não há leitos de UTI, Rafaela seria levada no dia seguinte para um hospital em Vitória da Conquista, maior cidade do sudoeste baiano, mas morreu antes de a ambulância chegar. "Quando me deram a notícia, foi um choque. Eu fiquei louco dentro daquela UPA. Dizia "vocês mataram minha esposa, ela chegou aqui bem"", conta Erisvaldo. O laudo que comprovou a Covid-19 como causa da morte saiu dois dias depois. Segundo o marido, a suspeita é que Rafaela tenha contraído a doença de convidados de um casamento para 280 pessoas no dia 14 de março em uma pousada em Trancoso. Sua empresa prestou serviço de transfer ao evento. Rafaela não trabalhou na festa, mas costumava dirigir o mesmo carro no qual o marido trabalhava. "Nesse dia, transportamos muita gente. Como trabalho com turismo, costumo ter contato com gente do mundo todo", diz Erisvaldo, que também fez teste para saber se contraiu a doença, mas deu negativo. A recém-nascida Alice testou positivo para o novo coronavírus. "Ela está muito bem, sem sintomas", diz Erisvaldo, que tem outra filha do primeiro casamento. Além do luto, Erisvaldo teve que enfrentar comentários maldosos de pessoas da comunidade em redes sociais, que o acusavam de ser irresponsável e de estar espalhando a doença pela cidade. "Esse mundo é cruel e as pessoas são maldosas. Acham que eu perdi a minha esposa porque quis?". Por outro lado, diz, recebeu ligações de solidariedade de vizinhos e clientes. Erisvaldo afirma que Rafaela era uma mulher trabalhadora, determinada e que estava sempre cheia de sonhos. "Era uma pessoa maravilhosa, muito lutadora. Trabalhadeira igual a ela não existia." Lamenta que sua mulher tenha partido sem conseguir exercer plenamente a maternidade pela qual tanto lutou. "Estávamos começando a conquistar as coisas, sabe? Nossa empresa crescendo, nossa filha nascendo. E agora ela não está mais aqui."