Biografia do  Kraftwerk
desvenda origens dos pais

da música eletrônica

  • O LIVRO

    ALEX KIDD

    DE SÃO PAULO

     

    Segundo David Levy, pesquisador britânico de inteligência artificial, é possível que o primeiro casamento entre um homem e um robô ocorra até 2050.

     

    É um futuro com o qual o Kraftwerk sonha há décadas. Nos anos 1970 e 1980 (quando Apple e IBM engatinhavam), o quarteto criou uma música tecnológica com batidas robóticas que hoje soam como trilha de videogame.

     

    Tendo a Alemanha pós-Segunda Guerra como cenário, os rapazes de Düsseldorf tinham uma meta: rejeitar todas as tradições da música pop e inventar algo completamente novo.

     

    Com sintetizadores e certo romantismo, compuseram sobre rodovias, trens e computadores —a música folk das fábricas.

     

    Avessa aos holofotes, a banda raramente dava entrevistas. Desvendar suas origens: eis o desafio de David Buckley na biografia (só parcialmente autorizada) “Publikation” (2011), recém-lançada no Brasil.

     

    “Não foi fácil”, ele afirma à Folha. Ralf Hütter e Florian Schneider, fundadores e cabeças pensantes do Kraftwerk, recusaram-se a colaborar com a obra.

     

    Mas os ex-integrantes Wolfgang Flur e Karl Bartos compartilharam sua “memória RAM”, e desses papos Buckley —que já escreveu sobre David Bowie—extrai algoritmos interessantes. “Eles eram a antítese do rock dos anos 1970. Em vez de cabelos longos e jeans rasgado, se vestiam feito bancários.”

     

    A maior polêmica envolve a concepção de “Autobahn” (1974). Segundo Buckley, Conny Plank foi o grande responsável pelo som do Kraftwerk. Ele coproduziu o disco e deu a ideia de trocar o órgão pelo sintetizador. Nos créditos, porém, só aparece como engenheiro de som.

     

    Se o Kraftwerk deu corpo aos ritmos sintéticos, foi o italiano Giorgio Moroder quem os levou ao topo das paradas. Dono de um bigode canastrão, o produtor de faixas como “I Feel Love” (Donna Summer) já usava sintetizadores para incrementar sua disco music nos anos 1970.

     

    Buckley reproduz uma provocação de Moroder: “Eles acham que com uma melodia fácil e um sintetizador podem criar um hit”.

     

    A resposta de Düsseldorf veio com “The Man-Machine” (1978). Músicas como “The Robots” ironizavam o calor da disco music, com elementos do gênero pontuados roboticamente.

     

    David Bowie era um apreciador da “paródia do minimalismo” feita por eles. De cafés e noitadas com Bowie e Iggy Pop nasceu o álbum “Trans-Europe Express” (1977), que cita os dois na faixa-título.

     

    Bowie homenageou Florian em “V-2 Schneider”, do disco “Heroes” (1977). Para batizar a música instrumental, fundiu o nome do amigo ao do primeiro míssil balístico, usado pelos nazistas em Londres.

     

    Ainda assim, o Kraftwerk declinou parceria com o britânico. Idem para Michael Jackson, que os queria produzindo “Thriller”.

     

    Para Buckley, a derrocada criativa se deu após Hütter se apaixonar por uma máquina, a bicicleta —tema do último disco de estúdio  da banda, “Tour de France” (2003). “Obcecado pelo ciclismo, ele não tinha mais interesse em turnês.”

     

    Hütter, único remanescente da formação original, comenta em entrevista reproduzida no livro o legado do Kraftwerk: “É a ideia de não separar dança aqui, arquitetura ali e pintura lá. Rompemos a barreira entre artesãos e artistas. Éramos operários da música”.

    KRAFTWERK: PUBLIKATION

    AUTOR   David Buckley

    EDITORA  Pensamento

    QUANTO R$ 52
    (368 págs.)

  • RAIO-X DA BANDA

    RALF HüTTER

    (sintetizador)

    Cabeça do grupo e único membro que restou da formação original

    FLORIAN SCHEINDER

    (sintetizador)

    Fundou a banda.

    Era responsável por equipar o Kling Klang Studio com sintetizadores

    KARL BARTOS

    (percussão eletrônica)

    Entrou quando o grupo precisava de um percussionista para seus ritmos repetitivos

    WOLFGANG Flür

    (percussão eletrônica)

    Foi cooptado por acharem seu estilo de tocar bateria bem “confiante e minimalista”

    A banda foi formada na cidade de Düsseldorf, Alemanha,
    em 1970

    Düsseldorf,

    ALEMANHA

    PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS

    Uso do sintetizador como instrumento

    Estética

    retrofuturista

    Obsessão pela relação homem-máquina

  • DISCOGRAFIA BÁSICA

    KRAFTWERK 2 (1972)

    O grupo testa a manipulação sonora de instrumentos convencionais, como flautas

    AUTOBAHN (1974)

    Inspirado pelos Beach Boys, o disco é a resposta alemã à música de estrada californiana

    RADIOACTIVITY (1975)

    Sombrio, o disco causou controvérsia com uma mensagem antiguerra dúbia

    TRANS-EUROPE EXPRESS (1977)

    O disco mais influente. Um sample da faixa-título ajudou a consolidar o hip-hop

    The Man-Machine (1978)

    Surge o interesse pelas máquinas na faixa ‘The Robots’. Os ritmos dançantes fazem lembram a disco music

     

    Computer World (1981)

    Apesar do nome,

    nenhum computador

    foi usado na produção da obra mais sampleada dos robôs

  • VÍDEOS

    "Ruzuck" - Em 1970, ainda com influências do krautrock, o Kraftwerk se apresenta em Soest, na Alemanha

    "Trans Europe Express" - Videoclipe oficial de 1977

    "The Robots" - Versão ao vivo exibida na TV alemã em 1978

    "Pocket Calculator" - Em 1981, a banda apresentou uma versão italiana da música no programa "Discoring"

    "Music Non Stop" - Em 1986, o vídeo criado pela artista Rebecca Allen, foi um dos precurssores a usar computação gráfica

  • CURIOSIDADES

    RECUSARAM PARCERIAS COM...

    DAVID BOWIE

    O britânico convidou a banda para abrir a fase europeia da turnê ‘Station to Station’, mas os robôs declinaram

    MICHAEL JACKSON

    Em 1982, antes de bater na porta de Quincy Jones, o popstar queria que a banda produzisse o disco ‘Thriller’

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    canções sampleam ‘Numbers’, de 1981

    Ouça "Planet Rock"do Afrika Bambatta que sampleou "Numbers" e "Trans Europe Express"

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    covers já foram feitos; em 2000, o produtor Uwe Schmidt fez um disco só com versões do Kraftwerk em bolero

    Ouça o cover do Siouxsie & The Banshee para "Hall of Mirrors"

 “NOSSO TRABALHO REFLETE A ideia de não separar dança aqui, arquitetura ali e pintura lá. Rompemos a barreira entre artesãos e artistas. Éramos operários da música”.
HALF HÜTTER

ILUSTRAÇÕES

BRUNO OLIVEIRA SANTOS