OQUADRINISTA

ANGELO DIAS

DE SÃO PAULO

 

“Minha maior esperança era que as pessoas quase esquecessem que eu era um teórico e que vissem a HQ como uma história pura”, diz o quadrinista americano Scott McCloud, 55, autor de três importantes livros sobre a teoria desse gênero.

 

Ele vem ao Brasil no evento Comic Con Experience, em dezembro, para o lançamento de sua primeira ficção longa em 25 anos, a graphic novel “O Escultor” (do selo Jupati Books, editora Marsupial).

O livro, um calhamaço de 500 páginas, narra a história de um jovem escultor que faz um acordo com a morte. Em troca do poder de esculpir qualquer coisa com as mãos, David Smith concorda em viver só mais 200 dias.

 

Mas isso não é o bastante para afastá-lo da frustração de ter seus trabalhos rejeitados. Mesmo com seus novos poderes, Smith não é um bom escultor e ninguém compra o que produz.

 

É a atriz Meg quem o salva de sua autodestruição, o que resulta em uma paixão cheia de segredos. “Há um pouco de mim no protagonista e muito de minha mulher em Meg”, admite McCloud.

O livro, que aborda vários temas simultaneamente, como amor, comércio, morte e arte, será adaptado pela Sony para o cinema (leia abaixo).

PorquÊ um
escultor e não um quadrinista?

Não há como separar o teórico do artista: “O Escultor” é o exemplo de que McCloud faz o que fala. O livro reflete ensinamentos que já estavam em trabalhos anteriores do autor, como a utilização de um só quadro na página inteira ou desenhos da cidade para situar o local da história.

 

“Se precisarem escolher um termo, prefiro quadrinista”, diz McCloud, mais conhecido por seu trabalho como teórico do que como escritor de ficção. “O que faço são quadrinhos, só um pouco é teoria. Essa é a parte mais importante do que sou. Todos os dias sento e desenho coisas.”

você se considera um acadêmico?

Seus três livros sobre quadrinhos (em forma de quadrinhos), não são obras acadêmicas, mas se tornaram referência sobre o tema, e são citadas em artigos e pesquisas.

 

“Desvendando os Quadrinhos” (2004), “Reinventando os Quadrinhos” (2005) e “Desenhando Quadrinhos” (2007) —editados no Brasil pela M. Books— são utilizados em cursos e aulas sobre o tema.

como a escultura se comporta nos quadros de uma HQ?

“Minha escrita sobre quadrinhos veio de experiência própria. Eu era só um artista jovem com um monte de ideias loucas e resolvi colocá-las no papel”, afirma.

O processo de desenvolvimento de “O Escultor” durou cinco anos.

 

McCloud diz que nunca havia pensado por que escolheu um escultor como protagonista até ser questionado sobre a decisão em entrevistas. “Quando você cria algo, considera várias decisões, mas às vezes se esquece da primeira de todas.”

PorquÊ a escolha de apenas três cores em "o escultor"?

“Minha escrita sobre quadrinhos veio de experiência própria. Eu era só um artista jovem com um monte de ideias loucas e resolvi colocá-las no papel”, afirma.

O processo de desenvolvimento de “O Escultor” durou cinco anos. McCloud diz que nunca havia pensado por que escolheu um escultor como protagonista até ser questionado sobre a decisão em entrevistas. “Quando você cria algo, considera várias decisões, mas às vezes se esquece da primeira de todas.”

 

Além do preto e branco, só uma cor —um tom de azul próximo ao cobalto (na escala usada pela indústria gráfica, o Pantone 653)— permeia a obra, criada de forma digital.

 

“Meu senso de cor não é tão bom. Precisaria colaborar com alguém para colorizar, então preferi escolher uma cor só”, justifica.

O ESCULTOR

AUTOR   Scott McCloud

EDITORA  Jupati Books (selo de quadrinhos da Marsupial Editora)

QUANTO Não informado

  • RAIO-X

    NOME Scott McCloud

     

    IDADE 55

     

    NASCIMENTO Boston, Massachusetts

     

    EDUCAÇÃO Bacharelado em Belas Artes pela Universidade de Siracusa, em 1982 (EUA)

     

    CARREIRA Escreveu e desenhou quadrinhos de ficção e teoria. Seus trabalhos mais conhecidos são Desvendando os Quadrinhos (2004), Reinventando os Quadrinhos (2005) e Desenhando Quadrinhos (2005). Veja mais sobre seus livros abaixo.

     

    PREMIAÇÕES McCloud tem cinco prêmios Harvey, um Jack Kirby e um Ross Manning. Foi nominado para outros seis prêmios Harvey e 11 prêmios Eisner.

  • LIVROS DO AUTOR

    DESTROY!

    1986*

    Uma paródia de histórias violentas de superheróis

    ZOT!

    1991 a 1998*

    Ficção científica/história de heróis mais leve que as lançadas na época

    Desvendando os Quadrinhos

    1993*

    Um estudo sobre a definição, história, vocabulário e métodos dos quadrinhos (em forma de quadrinhos)

    New Adventures of Abraham Lincoln

    1998*

    Um quadrinho que mistura gráficos gerados por computadores e desenhos feitos à mão

    Reinventando Quadrinhos

    2000*

    McCloud apresenta doze "revoluções" para o crescimento e sucesso dos quadrinhos como mídia criativa e popular

    Desenhando Quadrinhos

    2006*

    O autor trata de técnicas e estilos diferentes de contar histórias, como o Mangá e a Graphic Novel

    *Datas de lançamento nos EUA

  • MÍDIA E QUADRINHOS

    Os direitos de “O Escultor” para o cinema já foram comprados pela Sony. Os produtores Scott Rubin ("Vanilla Sky") e Josh Bratman ("Padre") são os responsáveis pela adaptação. Ao ser indagado sobre a complexidade de transpor a obra para as telas, McCloud é vago. “Vai ser complicado, mas qualquer filme é complicado. Muita coisa pode dar certo e errado."

     

    McCloud diz que gosta de assistir adaptações de histórias em quadrinhos no cinema, mas se incomoda com a falta de crédito para alguns artistas. Ele cita como exemplo o desenhista Jack Kirby, que trabalhou na Marvel com Stan Lee e foi co-criador de vários personagens, como o Capitão América e o Homem-Formiga.

     

    “Hoje há um lugar para conversar sobre quadrinhos na mesa de jantar”, diz o autor. Ele acredita que as adaptações  para o cinema são boas para a aceitação dos quadrinhos mas acha que ainda falta alguma coisa. “Muitas pessoas pensam que quadrinhos são apenas pessoas em roupas apertadas batendo umas nas outras. Mas é claro que os quadrinhos são muito mais que isso.”

     

    DIVERSIDADE

     

    O futuro é otimista, diz ele, e a evolução está na variedade. “O crescimento está na produção de quadrinhos mais maduros para adultos, mais interessantes para crianças e mais inovadores na internet. Está em mais pessoas fazendo quadrinhos, com diferentes experiências, nacionalidades e etnias.”

     

    O autor falou sobre 12 tipos de evolução em seu livro “Reinventando os Quadrinhos”, de 2000. “Hoje eu vejo progresso em quase todos eles”, diz. “A abrangência dos quadrinhos hoje está tão grande que é difícil ver onde ela começa e onde termina."

Fotos Divulgação

Ilustrações Scott McCloud