Pesquisador encontra apartamento onde Oswald
de Andrade e amigos se reuniam no pré-modernismo

POR LUÍS ANTÔNIO GIRON

Rua Líbero Badaró , 67, terceiro andar, sala 2, Centro de São Paulo. O endereço da garçonnière do escritor Oswald de Andrade (1890-1954) é considerado por estudiosos um dos berços do modernismo brasileiro. Foi num espaço de 42 metros quadrados no terceiro andar de um prédio de escritórios e apartamentos que o jovem Oswald, sua amante normalista Miss Cyclone e uma dezena de amigos boêmios —entre eles os futuros astros literários Monteiro Lobato, Menotti del Picchia e Guilherme de Almeida— promoveram um ensaio de incontinência estética que resultaria não só na Semana de Arte Moderna de 1922 como também na sua contestação.

 

A atividade do “covil da rua Líbero”, como o próprio Oswald o descreve, transcorreu entre 1917 e 1918. Seus frequentadores amaram e se enciumaram, dançaram e ouviram música, discutiram, brincaram, enlutaram-se e até esqueceram manuscritos, como o fez Lobato com as provas do livro de contos “Urupês”, deixado certa vez sobre o grande sofá verde com estampa de ramagens.

 

Contaram o que fizeram ao longo do ano marcado pelo fim da Primeira Guerra Mundial, a epidemia de gripe espanhola e a neve inédita que caiu sobre a cidade. Registravam suas impressões no álbum de visitas que ficava na salinha de entrada, um caderno de capa dura, pautado, com 33 centímetros de altura por 24 de largura, comum em estabelecimentos comerciais.

 

 

O APARTAMENTO DE OSWALD DE ANDRADE

Planta e detalhes da garçonnière alugada pelo jornalista e escritor em 1917, na rua Líbero Badaró

Um dos habitués mais assíduos, o romancista e futuro delegado de polícia Pedro Rodrigues de Almeida, intitulou o caderno “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo...” A obra coletiva foi “montada” entre 30 de maio e 12 de setembro de 1918 e finalizada depois do fechamento do apartamento, em setembro de 1918. Seria publicada em edição fac-similar em 1987, quase 70 anos depois de suas 203 páginas terem sido preenchidas.

 

A atividade do “covil da rua Líbero”, como o próprio Oswald o descreve, transcorreu entre 1917 e 1918. Seus frequentadores amaram e se enciumaram, dançaram e ouviram música, discutiram, brincaram, enlutaram-se e até esqueceram manuscritos, como o fez Lobato com
as provas do livro de contos “Urupês”

O PRÉDIO HOJE

No diário sucedem-se ditos, trocadilhos, piadas, recortes, caricaturas, poemas, quase-poemas concretos, manchas humanas e rastros de emoções fugidias. Um “livro-caixa-de-surpresas”, como o apelidou o poeta Haroldo de Campos (1929-2003), no prefácio do fac-símile. O álbum pode ser entendido como o relatório surrealista e jocoso do cotidiano de um grupo de rapazes e uma única moça na São Paulo do ápice da economia do café e no nascedouro da oferta cultural que tornaria a cidade famosa. O relatório foi preenchido pela vitalidade de um grupo que frequentou um espaço fixo por um tempo curto.

 

Para o crítico Mário da Silva Brito, autor de “História do Modernismo Brasileiro”, o diário antecipou as narrativas das vanguardas que logo surgiriam. Os convivas da garçonnière, segundo ele, elaboraram um drama experimental fixado em um “livro-objeto”. Como tal, faltava encaixar o volume ao lugar exato onde ele foi elaborado.

 

Como numa instalação contemporânea, o diário, as pessoas e o lugar onde tudo aconteceu formam uma só obra de arte —e de vida. Essa obra foi um momento simbólico da vanguarda no Brasil: o de sua aparição.

 

Do ponto de encontros —e do que seu anfitrião definiu como “vaudeville trágico” que lá se processou— restaram alusões, lendas e o excêntrico livro de visitas —que acabou ficando com Oswald e depois com o filho primogênito, Nonê. Mas, na ausência de testemunhas vivas, o paradeiro do apartamento ganhou fumaças de mito, porque era dado como perdido em uma das várias demolições de prédios e remodelações que a rua onde ficava sofreu. Mesmo a maioria dos estudiosos e críticos de cultura brasileira afirmava, unânime, que o local da rebelião pré-modernista estava irremediavelmente perdido.

 

O apartamento, hoje sem número, um dos nove do edifício, localiza-se nos fundos do lado direito do elevador, na ala leste do prédio, que não tem nome. A forração do teto e o piso com disposição diagonal, ambos de madeira, são os mesmos sob e sobre os quais passou a turma de Oswald

 

Agora, porém, a  versão consagrada cai por terra. O prédio ainda está de pé, oculto e espremido entre edifícios maiores. A porta principal de madeira de lei é a mesma, e ainda funciona o elevador de ferro, com a porta pantográfica —que, em 1918, era operado por um menino ascensorista, fardado. As escadas de mármore são decoradas com ladrilhos nos três patamares e ladeadas por corrimãos de metal e balaústres.

 

A garçonnière apresenta a configuração original, ainda que o imóvel tenha sido invadido por sucessivos movimentos de sem-teto, e a banheira de metal com flores esmaltadas —onde Miss Cyclone relaxava e se insinuava aos habitués—, transportada para uma fazenda dos proprietários, no Acre.

 

O apartamento, hoje sem número, um dos nove do edifício, localiza-se nos fundos do lado direito do elevador, na ala leste do prédio, que não tem nome.

 

O banheiro, de cinco metros quadrados, com a porta dotada de quadrados de vidro fosco (um deles trincado), não abriga mais nenhuma louça. Está nu, com as marcas do vaso sanitário, o bidê, a pia e a banheira. A saleta de entrada tem sete metros quadrados e a sala, 30. As janelas com venezianas de cor creme dão para dois fossos de luz —de frente para as janelas dos vizinhos. A forração do teto e o piso com disposição diagonal, ambos de madeira, são os mesmos sob e sobre os quais passou a turma de Oswald.

 

O prédio, construído por volta de 1914, foi “a primeira casa de apartamentos para solteiros da cidade”, conforme o anúncio nos jornais da época. Não tinha cozinha nem área de serviço. Nem precisava: localizava-se na região do Triângulo, que era o coração da São Paulo rica e sofisticada, com seus restaurantes, cafés, teatros, confeitarias e todo tipo de facilidades —um paraíso para jovens endinheirados. O edifício sempre pertenceu à família Campos, de militares e cafeicultores. Hoje está vazio e à venda.

O LIVRO DE VISITAS
DA GARÇONNIÈRE

Reproduções de páginas da edição fac-similar de “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo...”

NÚCLEO

“A garçonnière oswaldiana deve ser preservada e restaurada”, diz o historiador e escritor paulistano José Roberto Walker, de 61 anos, responsável pela identificação do prédio que abrigou a garçonnière. “Isso porque o local é tão importante para a história da cultura da cidade quanto o Teatro Municipal, o Conservatório Dramático e Musical, a Casa Guilherme de Almeida e a Casa Mário de Andrade. A diferença é que a garçonnière representa um espaço coletivo da primeira convivência entre artistas e intelectuais que viria a formar o núcleo da Semana de Arte Moderna de 1922.”

 

Chamavam-se “garçonnières” os apartamentos que homens costumavam alugar para encontros amorosos numa cidade patriarcal e preconceituosa que, aos poucos, trocava os mascates e os tílburis pelas celebridades e os automóveis. O matadouro de Oswald tinha uma peculiaridade. Ele parecia detectar o ritmo das mudanças e, se servia também para o fim primordial do sexo, constituía também um local de liberdade e convivência cultural.

 

 “A obra de Oswald só pode ser compreendida se conhecermos a sua vida, pois ele sempre se refere a ele próprio", diz o pesquisador José Roberto Walker. Tudo parece girar em torno do drama que se desenrolou na garçonnière —e na vivência que determinou sua experiência literária até a morte

 

“Além disso, o que se passou no apartamento agora localizado é central para a compreensão da obra de ficção de Oswald”, diz o pesquisador. “A obra de Oswald só pode ser compreendida se conhecermos a sua vida, pois ele sempre se refere a ele próprio.” Tudo parece girar em torno do drama que se desenrolou na garçonnière —e na vivência que determinou sua experiência literária até a morte.

 

A partir dessas premissas, Walker começou a decifrar o enigma da localização. Segundo ele, foi uma missão relativamente simples. “Para resolvê-lo, bastava que alguém se desse ao trabalho de realizar uma investigação simples, mas trabalhosa, da disposição das ruas do Centro”, afirma.

 

Foi o que ele fez. Em 2011, quando pesquisava no Arquivo Municipal para escrever um romance sobre Oswald de Andrade, descobriu que a numeração da rua havia se alterado quatro vezes, inclusive com troca de lados para os números pares e ímpares. Segundo Walker, o endereço que Oswald informara nas suas memórias e confissões, “Um Homem sem Profissão - Sob as Ordens de Mamãe”, publicado em 1954, pouco antes de sua morte, corresponde ao do prédio que leva hoje o número de 452 da rua Líbero Badaró.

 

“Pesquisei também fotografias da rua tiradas entre os anos 1910 e 1920”, afirma Walker.

Á direita na foto em que aparece com uma amiga, Maria de Lourdes Pontes, a musa da garçonnière

“BAS FOND”

“No começo, eu pensava que o prédio ficava próximo ao largo de São Francisco. Mas deduzi que ficava do outro lado”, diz o pesquisador. “Mesmo assim, não consegui divisá-lo, pois não havia ângulo para que as fotografias mostrassem o edifício. Consultei o registro de emplacamento. A numeração mudou várias vezes: em 1909, 1915, 1922, 1928 e 1936. Antigamente, chamava-se rua de São José. Ali ficava o ‘bas fond’, a zona do meretrício da velha São Paulo. Mas a remodelação do vale do Anhangabaú soterrou a imagem de rua mal-afamada, povoada de prostitutas, clientes, cáftens e apaches, como eram conhecidos os malandros do tempo, imitadores da moda dos apaches parisienses. A partir de 1912, a rua foi alargada e diversos sobrados destruídos. Ergueram-se ‘arranha-céus’ modernos.”

 

O prédio foi projetado pelo arquiteto Samuel das Neves em 1913 e concluído entre 1914 e 1915 —quando a numeração foi invertida. Em 1917, quando Oswald alugou o apartamento, era um lugar renovado e movimentado. O zelador Fiore, um italiano descrito no diário, atendia telefonemas na portaria e tinha trabalho para administrar o imóvel, vivia reclamando do barulho e do atraso dos aluguéis. Além de apartamentos, o prédio era ocupado também por escritórios: advogados e médicos, entre eles o doutor Raul Briquet, clínico de Oswald e, possivelmente, quem lhe sugeriu o local. Ali, desde o começo, funcionou o escritório de informações cadastrais do notário João Batista Campos Aguirre, que encerrou as atividades em 1962.

 

Na etapa seguinte da investigação, Walker visitou o prédio para encontrar o apartamento que abrigou os encontros de Oswald. Não restavam mais vestígios da numeração original das salas, e ele precisava determinar qual dos dois apartamentos dos fundos do terceiro andar correspondia à sala número 2 alugada pelo escritor. Emocionado, entrou no prédio sem ter ideia do que encontraria.

 

 

Walker visitou o prédio para encontrar o apartamento que abrigou os encontros de Oswald. Não restavam mais vestígios da numeração original das salas, e ele precisava determinar qual dos dois apartamentos dos fundos do terceiro andar correspondia à sala número 2 alugada pelo escritor. Emocionado, entrou no prédio sem ter ideia do que encontraria.

 

“Ao reler as descrições do diário, concluí que o apartamento do lado direito do elevador foi o da garçonnière”, diz Walker. E explica: “O apartamento do outro lado é menor; a sala não comportaria até 15 pessoas, e o saguão tinha quase a mesma área. A sala do apartamento à direita é grande, e acomodava bem uma dezena de pessoas no sofá verde, no divã de vime e nos diversos almofadões, jogados sobre um vasto tapete felpudo”.

 

“A grafonola Columbia com duas dezenas de discos ficava na mesinha de chá. Na sala, havia um armário e uma estante que servia de guarda-comida. O banheiro do apartamento à direita tem um espaço maior que o outro, e, diferentemente do outro, é suficiente para a instalação da banheira. Além disso o cômodo de entrada, que servia como saguão, é pequeno, como nos relatos deixados pelos frequentadores.”

 

Nessa sala de entrada, supõe Walker, ficava uma secretária branca, com o tinteiro, a pena e o diário, encostada à parede que exibia um florete sobre uma pele de tamanduá. Na parede da esquerda de quem entra, a janela decorada com o reposteiro claro, o retrato da bailarina russa Anna Pavlova e reproduções de quadros de Di Cavalcanti. Decoravam a saleta também um móvel com um relógio e um bibelô japonês. A maior parte do mobiliário vinha da casa da mãe de Oswald, que havia morrido seis anos antes. “No início, eu senti apenas a energia”, diz Walker. “Mas agora eu tenho certeza de que tudo aconteceu lá.”

Caricatura de Oswald de Andrade

NEVE

Restaurar e interpretar os acontecimentos que se deram no pequeno apartamento foi o que moveu Walker para elaborar o romance inédito “A Neve em uma Manhã de São Paulo”. Ele se baseou em documentos e fatos, e apenas alguns diálogos e personagens aparecem ligeiramente alterados, como o de Pedro, o narrador da história, um escritor fracassado que se torna delegado de polícia.

 

O título se refere ao dia real de 25 de junho de 1918, quando a temperatura caiu para 3,2 graus negativos e nevou na cidade. Ao longo do dia gelado, segundo o pesquisador, provavelmente Oswald e Cyclone (pronunciava-se com acento na primeira sílaba) se amaram com uma intensidade nunca reprisada na sala de pé-direito alto, desprovida de lareira, estirados sobre o tapete macio e amparados pelas grandes almofadas. O ápice, porém, seria sucedido por uma tragédia que vincaria o futuro de Oswald e sua literatura, marcada pela ousadia —mas também pela culpa.

 

O coração do drama é uma “personagem arrebatadora”, para Walker, foco da vida na garçonnière:  Maria de Lourdes Pontes. Chamada na família de Dazinha e Deisi, na garçonnière, assumiu os codinomes Miss Cyclone e Gracia Lohe.

 

Em 25 de junho de 1918, a temperatura caiu para 3,2 graus negativos e nevou na cidade. Ao longo do dia gelado, segundo o pesquisador, provavelmente Oswald e Cyclone (pronunciava-se com acento na primeira sílaba) se amaram com uma intensidade nunca reprisada na sala de pé-direito alto, desprovida de lareira, estirados sobre o tapete macio e amparados pelas grandes almofadas

 

Dazinha tinha 17 anos. A jovem esguia, de pele alva, rosto forte e olhos negros escondidos por uma mecha que lhe caía pela testa, era órfã de pai (o comerciante João de Souza Pontes Jr.) desde os 12 anos. Nasceu em Cravinhos, interior de São Paulo, e cursava a escola normal no colégio Caetano de Campos, na praça da República. Hospedava-se na casa de uma prima, a professora de piano Antonieta Pontes, que morava na rua Olinda —hoje rua João Guimarães Rosa—, ao lado da casa de esquina da rua Augusta onde Oswald morava com o pai e a companheira francesa Kamiá, “rainha dos estudantes de Montparnasse”, com quem tivera um filho, Nonê, mas já não mantinha relações amorosas.

 

Oswald era folhetinista no jornal “A Gazeta” e dono da seção “Teatros e Salões”, no “Jornal do Comércio”, além de fundador de “O Pirralho”, que circulou de 12 de agosto de 1911 a 23 de fevereiro de 1918. Certo dia, num almoço, Antonieta levou, nas palavras de Oswald, “uma prima esquálida e dramática, com uma mecha de cabelos na testa. Chamavam-na Deisi. Parece inteligente”.

 

O escritor convidou-a a amá-lo, em tom de blague. “Sim, mas sem premeditação”, disse ela. Os dois começaram a estreitar relações. Animado pela possibilidade de ter encontros íntimos com a garota, ele alugou a garçonnière. “Estamos no ano de 17”, conta Oswald nas memórias. “Dessa época, do ano de 18 até 19, componho com os frequentadores da garçonnière e com Deisi, que se tornou minha amante, um caderno enorme.”

 

O núcleo da roda de amigos era formado por dez pessoas, sem contar Oswald. Alguns usavam apelidos para escrever no diário: Oswald (Garoa e Miramar), Deisi (Miss Cyclone, Miss Tufão, Miss Terremoto, Tufãozinho e, no final, Gracia Lohe), Pedro Rodrigues de Almeida (João de Barros), os estudantes de direito Sarti Prado e Vicente Rao, as estrelas literárias Monteiro Lobato (Frei Lupus Ancilóstomo, Conselheiro Acácio, Chico das Moças, Lobe, Rowita, Constante Leitor, Cuscus, Tutu Lambari e Zé Catarro), Menotti del Picchia (Paulo) e Léo Vaz (Bengala e Pincenê), o poeta Guilherme de Almeida (Guy) e o desenhista Ignácio da Costa Ferreira, o Ferrignac (Ventania e Jeroly) , além do mais jovem, o estudante Edmundo Amaral.

 

“Muito de arte entrará nestes temperos, arte e paradoxo que fraternalmente se misturarão para formar, no ambiente colorido e musical deste retiro, o cardápio perfeito para o banquete da vida”, escreveu Almeida, na página inicial do diário.

 

Muitos convidados e penetras davam um jeito de aparecer. O grupo se acomodava em sofás, cadeiras e almofadas e promovia almoços e jantares. Encomendavam os pratos nos restaurantes próximos. Um armário guarda-comida na sala dispunha de louças, talheres e bebidas, além de mel e petiscos.

 

A “mucama do Guy” fazia a faxina do lugar. Além dela e de Dazinha, mais mulheres apareceram por lá —prova disso é que um grampo de cabelo foi colado a uma página do diário. A mais célebre foi a atriz francesa Yvonne Mirval, famosa pelo papel de Louise de la Vallière no filme “Fouquet, o Homem da Máscara de Ferro”, sucesso de 1910.

 

La Mirval se apresentava em São Paulo como vedete de uma trupe francesa. Ela teve breve encontro amoroso com Ferrignac em 9 de setembro. O caricaturista escreveu, sob o pseudônimo de Ventania: “Ontem esteve aqui a mais linda mulher da terra: Yvonne Mirval — da trupe Brulé. Meia hora — e saiu no sulco loiro de seu corpo perfeito”. Colou na página seguinte uma gravura colorida representando Yvonne, com a legenda: “Yvonne Mirval da Costa Ferreira”.

 

Na realidade, a autoria dos textos, desenhos e colagens do diário se revela caótica, porque misturavam os apelidos e muitas vezes um escrevia em nome de outro.

 

Nas folhas pautadas, Oswald chegou a compor um pré-poema concreto com o nome “Miramar”. Essa experiência o inspirou a reelaborar o romance “Memórias Sentimentais de João Miramar”, publicado em 1924, que ele começara a escrever em 1915.

 

Muitos convidados e penetras davam um jeito de aparecer. O grupo se acomodava em sofás, cadeiras e almofadas e promovia almoços e jantares. Encomendavam os pratos nos restaurantes próximos

 

“Miramar” é a primeira narrativa longa de vanguarda brasileira e marco do modernismo. Ao longo de nove anos, Oswald aperfeiçoou o estilo para avançar no atrevimento e na inovação estética. Muito deveu aos textos do diário, que antecipavam seus procedimentos nas duas “dentições” do modernismo.

 

Prova disso é que, antes da garçonnière, o modo de contar história nos primeiros esboço é linear, como o capítulo “Rumo à Vida Sensacional”, publicado em “O Pirralho” em 30 de setembro de 1917. Foi apresentado como o primeiro capítulo do livro, mas foi refugado na primeira edição.

 

A narrativa experimental aconteceria na passagem entre os primeiros capítulos do romance e o final da experiência da garçonnière, sob a influência da amante e dos amigos. Deisi foi uma das primeiras a ler uma versão do livro, e o elogiava para os outros. Ela vivia “o sofrimento de muitas almas de ficção”, como disse. Fazia poemas e escrevia uma história policial, que Oswald perderia no futuro.

 

O mosaico de textos do diário refere-se vez por outra ao século 21 como um futuro repleto de maravilhas. Para o leitor atual, de fato, o diário dá a impressão de um reality show da “belle époque”, com direito a palavrões, gírias e outras indiscrições.

BOÊMIOS "ART NOUVEAU"E SEUS CODINOMES

Os principais escritores acadêmicos e penetras do "covil da rua Libero"

 

 

Oswald de Andrade

(1890-1954) –

Miramar, Garoa

Romancista, jornalista e poeta. Autor de “Memórias Sentimentais de João Miramar” (1924), “Serafim Ponte Grande” (1933) e da trilogia “Os Condenados (1922-1934)”, marcos do modernismo brasileiro. Um dos líderes da Semana de Arte de Moderna de 1922, fundador da revista “Klaxon” (1922-1923)
e da “Revista de Antropofagia”
(1928-1929)

 

Maria de Lourdes Pontes (1900-1919) – Deisi, Dazinha, Miss Cyclone, Miss Tufão, Miss Terremoto, Tufãozinho e

Gracia Lohe

Normalista nascida em Cravinhos. Aspirante à literatura. Deixou “uma difusa e numerosa literatura”, segundo Oswald. Escreveu cartas, memórias e uma novela de mistério, textos perdidos por Oswald. Dela, restou um diário de 1918

 


Pedro Rodrigues

de Almeida -

João de Barros

Escreveu romances naturalistas e terminou seus dias como delegado de polícia no interior de São Paulo. Segundo Oswald, ele foi “o maior e mais trágico fracassado de sua geração numerosa”

 

 

Amado Sarti Prado

(1892-1955) -

Miles

Advogado que se casou com Kamiá, ex-mulher de Oswald. Enriqueceu com a herança que Kamiá recebeu do ex-sogro, pai de Oswald

 

 

Vicente Rao

(1892-1978) -

Advogado, jurista e professor

ENREDO

Como nessa modalidade televisiva, o enredo foi construído mais pela ação do que pelo planejamento dos autores-atores. Desde o início, Deisi tornou-se objeto de uma “paixão coletiva”, e todas as declarações giravam em torno dela. Assim, exerceu o fascínio da mulher moderna, multifacetada e voluntariosa.

 

De acordo com Mário da Silva Brito, ela foi a “figura símbolo para um grupo de uma outra mulher que então se forjava —a mulher moderna, em busca de liberdade, de afirmação, de independência”.

 

Como a tomar o pulso instável da heroína futurista, o diário viaja de um relato anárquico e piadista para um drama neorromântico, ao estilo da ópera “La Bohème” —cujos trechos eles gostavam de ouvir na fonola, pois música clássica era o hit do grupo. Dessa forma, o espírito de facécia das primeiras páginas aos poucos dá lugar a um enredo cada vez mais patético. Progressivamente, Deisi mostra “um sentimento ineludível de doença de morte e de frustração”, como confessaria o Oswald sessentão, contemplando a própria juventude com melancolia.

 

Como a tomar o pulso instável da heroína futurista, o diário viaja de um relato anárquico e piadista para um drama neorromântico, ao estilo da ópera “La Bohème”

 

No entanto muito do ambiente crepuscular da garçonnière resultou da imaginação de jovens aspirantes a escritores que ansiavam por se converter em personagens das belas-letras.

Aos 28, espírito de garoto e decididamente irresponsável, Oswald queria se fundir com o personagem que criou: o intelectual boêmio, ateu e anarquista João Miramar. Ao contrário da lenda gerada no diário, Cyclone não era uma “poitrinaire” (tuberculosa), como os rapazes a chamavam.

 

“Isso não passava de uma piada que os historiadores da literatura levaram a sério, assim como outras passagens do diário”, diz Walker, que detalha essa particularidade em seu romance. “Deisi só contraiu tuberculose no hospital perto da morte.” Era uma estudante saudável, fogosa e desafiadora, que agredia o bom-mocismo recalcado do amante e desafiava a pose dos seus comparsas, que ela chamava de “gravatas”.

 

Aos 28, quase garoto e decididamente irresponsável, Oswald queria se fundir com o personagem que criou: o intelectual boêmio, ateu e anarquista João Miramar

 

Como anotou João de Barros no diário: “A Cyclone é um desenho moderno do Sexo, feito nervosamente e a carvão, de um interesse empolgante, capaz de satisfazer a todos os espíritos de homem, os mais diversos e exigentes”.

 

Quando ela foi expulsa pela prima por perder o ano na Escola Normal, teve que viver com uma tia no bairro operário do Brás. Envolveu-se com rapazes pobres (“apaches”, como os definiu pejorativamente Oswald) ao mesmo tempo que frequentava seus garotos ricos, para horror do ciumentíssimo amante.

 

Ele a seguia pelas ruas. Foi dessa forma que descobriu que ela entrou em uma das casas amarelas à frente do prédio do Cassino Antártica —edificações ainda de pé. Era uma pensão para rapazes. Ele usaria o episódio no romance “Alma”, de 1922, primeiro volume de “Os Condenados – a Trilogia do Exílio (1922-1934)”. No livro, um jovem boêmio se deixa arrastar pelos encantos de Alma, uma prostituta que se disfarça de moça de família.

 

Quando ela foi expulsa pela prima por perder o ano na Escola Normal, teve que viver com uma tia no bairro operário do Brás. Envolveu-se com rapazes pobres ao mesmo tempo que frequentava seus garotos ricos, para horror do amante

 

O fato é que Deisi, “visgo puro”, não justificava suas atitudes, não pedia desculpas pelos atos nem tinha remorsos. Como uma falsa Dama das Camélias que nunca se arrependeu dos pecados, ela foi forçada pela família a ficar em Cravinhos por alguns meses (entre agosto de 1918 e fevereiro de 1919). De lá, escrevia histórias e cartas poéticas aos queridos “gravatas” da rua Líbero Badaró.

HISTÓRIA DA
IMPRENSA PAULISTA

O livro de Oscar Pilagallo é a mais abrangente história do jornalismo em São Paulo já escrita. Abarca dos primórdios da imprensa no estado, em 1823, às transformações do início do século XXI, com a expansão da internet.

“BIDET”

Ela nunca mais voltaria à garçonnière, dissolvida em setembro de 1918. Pediu a fonola, os móveis, quadros e tapetes do apartamento. “Lego-te o bidet, mas manda-me o espelho”, solicitou com ironia na carta a Oswald. O amante não atendeu a seus pedidos. Depois de muitas peripécias e disfarces para enganar a família dela, resgatou-a em Cravinhos, noivou com ela, montou-lhe uma casa na rua Santa Madalena em São Paulo. Nessa época, ela ficou com o diário da garçonnière por um tempo. Então leu os últimos episódios registrados e que não tinha testemunhado. Deu um fecho à aventurada garçonnière, escrevendo no fim da página 200: “E tanta vida, bem vivida, se acabou”.

 

Dazinha era fatalista —e a gravidez lhe coroou o destino. “Em junho, ela me diz que está grávida”, lembrou Oswald em 1954.
“De quem? Não pergunto. Ela não fala. Concordamos no aborto.”

 

A cirurgia seria fatal. Deisi agonizou na cama da Casa de Saúde Matarazzo, levada para lá pelo doutor Briquet, convocado por Oswald num episódio famoso. Trajando um pijama de alamares, ele invadiu o camarote do Teatro Municipal para suplicar que o médico socorresse a noiva, em convulsões. Oswald casou-se com ela no leito de morte em 11 de agosto de 1919. Como testemunhas compareceram Guy, Ferrignac e Lobato.

 

Dazinha era fatalista —e a gravidez lhe coroou o destino. “Em junho, ela me diz que está grávida”, lembrou Oswald em 1954. “De quem? Não pergunto. Ela não fala. Concordamos no aborto.”

 

Ao morrer, 13 dias mais tarde, Deisi murmurou nos travesseiros, com um sorriso magoado: “Que pena!”. Nas suas confissões, Oswald concluiria: “A que encontrei, enfim, para ser toda minha, meu ciúme matou”.

 

O diário termina com um nostálgico “da capo al fine” (anotação musical que indica que a leitura deve voltar ao começo, e assim por diante). Na página derradeira, o recorte de jornal que dá a notícia do enterro de Deisi, no jazigo da família Souza Andrade no cemitério da Consolação. Oswald foi enterrado 36 anos depois no mesmo local. Para que o corpo dele pudesse ser acomodado no túmulo, os restos mortais de Deisi foram transferidos para uma caixa ao lado do corpo dele. Até hoje estão juntos.

 

De toda a tragédia, permaneceu a imagem da mulher crucificada pelo preconceito, a que ele retomaria simbolicamente no romance “A Estrela de Absinto” (1927), segundo volume de “Os Condenados”, na cena em que o cadáver de Alma é usado para a autópsia em uma aula de anatomia.

ESPECTRO

Até o fim da vida, apesar de outras quatro uniões, Oswald foi assombrado pelo espectro da normalista que acreditava ter matado. Nos últimos meses de vida, convidou o jovem jornalista Marcos Rey (1925-99) para escrever com ele um livro. Em depoimento concedido em 1984 ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo, Rey contou que, sempre que se encontravam, Oswald perguntava: “E você, o que você faria no meu lugar? Você acha que fui culpado? Será que eu agi preconceituosamente?”.

 

Segundo Rey, não era o escritor quem falava. “Era um homem que estava diante de Deus.” Rey tentou consolá-lo: “O senhor não teve culpa nenhuma. Eu teria feito a mesma coisa”.

 

O gesto solidário foi inútil. Oswald não conseguia se desvencilhar do remorso. O “enfant terrible” do modernismo agia como o rapaz neorromântico que nunca deixou de ser católico.

 

Na última página, um recorte de jornal noticia o enterro de Deisi, no jazigo da família Souza Andrade no cemitério da Consolação; Oswald foi enterrado 36 anos depois no mesmo local

 

Suas últimas linhas foram dedicadas à garçonnière. O lugar serviu retrospectivamente como o altar impossível para a remissão de seus pecados. Quanto a Deisi, a “musa art nouveau da garçonnière miramariana”, como escreveu Haroldo de Campos, ela parece mais ardente e real hoje do que em 1918. “Não houve, na São Paulo dos anos 1910, uma mulher tão liberada quanto ela”, diz Walker. “Fomos concebidos naquela garçonnière. Somos todos descendentes de Miss Cyclone.”

 

Felizmente, resta quase intacta a garçonnière, sede do primeiro jorro de incontinência simbólica da “belle époque” paulistana, local de um convívio grupal entre cultores da arte pela arte e pelo desejo —e sala de parto de uma turbulência que não acaba.

Toque para ler o texto de Marcos Augusto Gonçalves

REPORTAGEM LUÍS ANTÔNIO GIRON

ARTE ALEX KIDD e CAROLINA DAFFARA
 
EDIÇÃO MARCOS AUGUSTO GONÇALVES, FRANCESCA ANGIOLILLO
e ÚRSULA PASSOS