Fita K7 é o novo vinil

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Escute as músicas citadas na reportagem

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER

DE NOVA YORK

Vinis, legais de novo? Talvez na semana passada. Descolada mesmo (ao menos até agora) é a fita cassete. Kanye West e Eminem estão entre os artistas que vêm lançando suas músicas na relíquia de 10 cm de altura e 7 cm de largura.

As lojas da Urban Outfitters, satélites da geração milênio para as últimas tendências, vendem a preço médio de US$ 13 essas e outras novidades não tão contemporâneas assim.

Uma delas é a trilha do filme “De Volta para o Futuro”, de 1985. Justin Bieber, outro que aderiu à mídia anciã, nasceu nove anos depois.

No mercado desde 1969, a americana National Audio Company fabrica anualmente cerca de 20 milhões de fitas, virgens ou pré-gravadas.

Após anos de sufoco, as vendas da companhia aumentaram 31% em 2015. Até junho deste ano, “estão muito além da primeira metade do ano passado”, segundo Steve Stepp, presidente da empresa (que não divulga o lucro). Em São Paulo, o estúdio de gravação Flapc4 comprou uma máquina, batizada de Master K7, que duplica até mil fitas por dia.

Divulgação

Jed Shepherd, dono da PostPop Records, e a artista Hettie Steinmore, uma de suas contratadas

O QUE É?

Se você tem de 20 anos para baixo, pode estar pensando: “Tá, mas do que estamos falando?”. Houve um tempo pré-internet, anterior até mesmo ao CD, em que as pessoas saíam pelas ruas com um aparelho chamado walkman.

Perto dos 130 gramas do iPhone 6, parecia uma bigorna de quase meio quilo. Mas dava para escutar a música que desse na telha, sem ficar refém do rádio, nessa novidade portátil introduzida em 1979 pela Sony.

Dentro ia um dos últimos grandes hits da mídia analógica: a velha fita magnética. Também chamada de cassete (no Brasil, abreviada para K7), ela foi condenada à morte várias vezes.

Quem, afinal, curtiria uma tecnologia tão obsoleta? Jed Shepherd é um dos primeiros a levantar o braço. Dono da gravadora independente Post/Pop, de Londres, ele questiona essa ideia de que, no universo das vendas físicas, CD é a melhor pedida.

“Eles dão bons frisbees improvisados e estrelas ninja, mas não são o formato que eu curto”, afirma em seu site.

À Folha ele repete a frase que mais ouviu ao abrir o selo: “Que isso, Jed? Não vai funcionar nem em 1 milhão de anos”. Demorou bem menos. Em 24 meses, lançou fitas de 50 bandas, de veteranas (The Prodigy) a calouras, como a Gunship.

Em geral, são lotes pequenos, de 50 exemplares, alguns customizados —no lado B da Gunship, por exemplo, o britânico gravou a trilha de “Ataque dos Camelos Mutantes”, jogo do videogame Commodore 64 (1982-1994).

INDÚSTRIA

A cena cassete não cobiça o gigantismo de uma indústria de CDs cada vez mais cadente —em 2014, as vendas digitais (US$ 6,85 bilhões) superaram pela primeira vez o formato físico (US$ 6,82 bilhões), abismo que continua a crescer.

“Todo o mundo quer bancar o arqueólogo, e eu acho isso fantástico”, diz Marcelo Conter, que em setembro lança o livro “Lo-Fi - Música Pop em Baixa Definição”, tema que estudou em seu doutorado na Universidade Columbia.

De acordo com Conter, há dois motivos para a fita ter voltado à moda: primeiro, elas são mais baratas —na Urban Outfitters, um LP custa em média duas vezes mais; segundo, em termos de qualidade, há quem veja diferencial: “Ela tem textura sonora diferente, mais quente, e o fato de dificultar pular as faixas privilegia a audição contínua”.

Ainda tem, lembra o pesquisador, “a história da pirataria analógica, que fascina as pessoas”. Amedrontada, a indústria fonográfica produziu uma precursora campanha antipirataria: “A gravação caseira está matando a música. E é ilegal”.

No fim, quem quase morreu foi a música.

Estúdio vai produzir fitas em SP

MARCELO JUSTO

DE SÃO PAULO

Depois da ascensão do vinil, que levou o mercado a patamares de vendas que já atingiram os da década de 80, agora é a vez de voltar a ouvir música com chiado de fundo com o retorno das fitas cassetes.

Em São Paulo, o produtor musical e sócio do estúdio FlapC4 Fernando Lauletta aposta nesse mercado. O estúdio adquiriu uma máquina copiadora de cassetes. Apelidada de Master K7, ela tem capacidade de gravar até cem fitas por hora.

Assim que desembarcarem no Brasil, as 5.000 fitas já compradas pelo estúdio, que fica no bairro da Bela Vista, vão suprir a demanda dos interessados em ter suas canções gravadas no processo analógico.

“Se não fosse por complicações de importação, já estaríamos produzindo essas primeiras fitas que compramos”, disse Lauletta.

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Réplica da fita demo do disco "No Life 'Til Leather", do Metallica

Há meses, o produtor tenta importar as fitas virgens, mas vem esbarrando em burocracias locais, dos EUA e do Canadá. As fitas não são fabricadas no Brasil desde 2000.

Nos próximos meses, as fitas já poderão ser, em parte, fabricadas no Brasil. “Nós conseguimos um fornecedor que tem os moldes antigos e que vai fazer a moldura plástica. A fita magnética será importada em rolos.”

As primeiras matrizes que chegarem serão para gravação de músicas de artistas independentes. “Essa procura é mais da galera do rock, do metal e do rap. São artistas que estão fora do mainstream [mercado comercial da música]. Eles vendem as fitas como suvenires em shows”, disse o produtor.

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Fita K7 do músico carioca Lê Almeida, fabricada na Argentina

ROCK INDEPENDENTE

No Rio de Janeiro, um grupo de músicos da cena de rock independente carioca criou o Cassete Club, um projeto de gravações de singles em fita cassete, comandado por Lê Almeida e João Casaes.

Os artistas criaram um selo, a Transfusão Noise Records, que tem lançado vários discos de bandas independentes em cassetes. “Sempre tive um envolvimento grande com essa mídia. Existe uma textura de som que só se alcança com a fita”, afirma Almeida.

Eles gravam as matrizes e mandam para uma fábrica na Argentina com tiragens de 50 a 100 fitas.

Segundo o músico, um fabricante de cassete no Brasil seria muito bom, já que a demanda está crescendo e o limite de tiragem para produzir na Argentina impede o aumento da produção.

Ele associa o aumento da procura à crise, pois os custos das fitas são bem menores do que prensar o vinil e até mesmo o CD. O custo de uma fita fabricada na Argentina é de cerca de R$ 8, enquanto bandas costumam vender por R$ 20.

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Fita do álbum "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10", de 1971, o primeiro disco solo do roqueiro Raul Seixas

COLECIONADOR

“Algumas bandas lançam somente em cassete material muito exclusivo”, afirma o colecionador Ezio Zoyd, que tem cerca de mil fitas cassetes e 30 tipos de toca-fitas em seu apartamento.

Para Zoyd, a qualidade sonora das músicas em cassete depende do aparelho. “A qualidade de um toca-fitas Gradiente do final da década de 70 não perde em nada para outras mídias como o CD.”

Os fãs da fita são unânimes em afirmar que quem procura a musica na sua forma mais crua, como nos formatos analógicos, sabe apreciar o momento de ouvir um disco por completo. E a vantagem está entre o lado A e o lado B.

Mídia traz peculiaridades, diz colecionador

DE SÃO PAULO

Para um colecionador, a fita cassete não é apenas um fetiche e muitas delas trazem peculiaridades únicas.

O colecionador Ezio Zoyd tem cerca de mil fitas cassetes e uns 30 tipos de toca-fitas em seu apartamento. As fitas estão carregadas de histórias que ele conta com muito entusiamo.

“Algumas bandas lançam material exclusivo só em cassete. Na 'Record Store Day' [evento mundial que reúne selos e gravadoras], por exemplo, os artistas fazem questão de lançar um produto específico. Uma banda que sou fã, a Goldfrapp, lançou esse ano cem fitas cassetes com músicas exclusivas”, conta Zoyd.

Segundo o colecionador, os cassetes também são envolventes devido aos encartes específicos, como uma versão do álbum Axis: Bold as Love, segundo The Jimi Hendrix Experience, lançado em 1967 e relançado recentemente.

“Essa fita do Hendrix vem com uma observação polêmica na capa, um adesivo que informa que a remasterização foi autorizada pela família dele, que detém os direitos autorais. Na época, eles haviam processado uma gravadora que relançou gravações inéditas sem autorização”, afirma Zoyd.

Marcelo Justo/Folhapress

Ezio Zoyd, colecionador de cassetes e proprietario da loja Zoyd Discos.