Felipe Jacome vive em Cité Soleil, em Porto Príncipe, sem água encanada, sem luz, sem fogão, sem segurança pública e sem saneamento básico.

Esses são problemas de infraestrutura comuns a todos os haitianos pobres. Só que esse não é o caso de Felipe, que é um jornalista, cidadão equatoriano, com o tom claro dos olhos e de pele impossível de se misturar entre haitianos de origem africana. Ele estudou na Universidade Johns Hopkins e na London School of Economics e vive há três anos longe de sua cidade natal, Quito.

Morar em um dos bairros mais pobres e violentos de Porto Príncipe foi uma opção.

Esse jornalista equatoriano chegou à capital haitiana para ganhar dinheiro trabalhando para ONGs. Além disso, ele produz matérias e fotos sobre o cotidiano das pessoas da região para jornais estrangeiros.

O trabalho social e o jornalístico de Felipe entram em conflito no momento que ele precisa de apoio da Minustah para realizar uma cobertura.

Felipe acompanhou o trabalho do Brabat 1 (1º Batalhão de Infantaria da Força de Paz) em uma ação cívico-militar, que envolvia instalação de postes de luz, distribuição de água, jogos de futebol e cortes de cabelo.

Com um creole fluente, ele desapareceu e só retornou quando o carro da ONU, que o levou à área, se preparava para sair. Dentro do carro das Nações Unidas, Felipe cobriu o corpo com três coletes à prova de balas e a cabeça com um capacete azul. Deitado no banco traseiro do automóvel, ele deixou o bairro de Delmas e cruzou a fronteira em direção a Cité Soleil.

Felipe é considerado pelos vizinhos de Cité Soleil como um morador e teme ser tido como informante, caso seja flagrado dentro de um carro da ONU. O rapaz conta que a confiança de que desfruta em Cité Soleil lhe garantiu acesso a lugares a que outro jornalista não chegaria, sem correr riscos.

O equatoriano conta que não adoeceu nenhuma vez, nos últimos três anos. Nem um resfriado pegou, diz, mesmo comendo e bebendo como um haitiano. Diz que nunca testemunhou ou correu risco, mesmo morando numa área insegura. Ninguém questionou sua relação jornalística com a Minustah.

Ele confessa que pensa em voltar para casa ainda neste ano, porque acha que já “abusou bastante da sorte”.
ROTINA DE SOLDADO
O soldado brasileiro que chega a Porto Príncipe passa ao menos seis meses longe da família, convivendo com a falta de estrutura, a violência e os riscos de contaminação por doenças como cólera, malária, dengue e filariose. Ele se voluntariou a passar por um processo seletivo difícil e integra a elite de militares brasileiros preparados para esse ambiente de tensão.

No Haiti, o soldado vê uma chance de ser promovido e de juntar algum dinheiro, já que recebe tanto pagamento da ONU em dólares quanto salário pago pelo governo brasileiro.

Com patrulhas a pé ou motorizadas, ele vai ocupar a maior parte do seu tempo no Haiti. Vai agir na escolta de comboios de suprimentos, segurança de autoridades, operações conjuntas com a polícia haitiana, segurança de canteiros de trabalho dos batalhões de engenharia e controle de distúrbios.

Em outros momentos, segue com o Exército nos trabalhos junto com órgãos civis na distribuição de água, jogos de futebol, instalação de poste de energia solar e construção de estrada e pontes.

Desde o início da missão das Nações Unidas para estabilizar o Haiti, em junho de 2004, mais de 20 mil soldados brasileiros passaram pelo país caribenho.
 
PINO
O comandante do Brabat 2 (2º Batalhão de Infantaria da Força de Paz no Haiti), o coronel Sinval dos Reis Leite, gosta de dizer a seus soldados que “o haitiano não quer que sintam pena dele, e o militar tem de entender que está ali para fazer um trabalho”.

O soldado não pode se deixar envolver pelo sentimento, porque pode cair em uma armadilha a que Sinval se refere pela sigla “pino”: pena, indiferença, nojo e ódio.

Segundo o comandante, o soldado primeiro fica com “pena da situação precária do haitiano, vê que, mesmo com todo o trabalho, não há mudança para população e passa a sentir indiferença pelas coisas que acontecem ao seu redor”.

O sentimento se agrava porque o militar começar a acreditar que parte do problema está na atitude da população e passa a “culpar o haitiano pela sua situação dramática”.

“Temos que respeitar a cultura local e entender que estamos aqui por um período e com um objetivo especificado pela ONU”, diz Sinval.
 
CICLO DE TRABALHO
O soldado que serve na Minustah segue um ciclo de trabalho rígido. Todos os dias ele tem instrução, patrulha ou ação cívico-militar, está em situação “de reserva”, pronto para entrar operação, e em descanso. Mesmo antes de começar o trabalho, o militar tem de fazer atividade física logo após o toque da alvorada, às 6h.

Na instrução, é definida a atividade do dia. A Folha acompanhou a preparação de ação conjunta entre os militares e as agências civis da ONU. Na reunião, os oficiais apresentaram características da região de Carrefour Troix em Delmas, alvo do dia.

Em seguida, o comboio com caminhões com água e a tropa segue para Carrefour Troix. No bairro, os militares ajudam a população a instalar postes de luz movidos a energia solar, abastecem com água potável baldes trazidos à rua, dão desenhos para as crianças colorirem, cortam cabelos e fazem apresentações musicais.
Quando os soldados tocam Michel Teló, as crianças repetem o refrão, “ai, se eu te pego”, com sorriso no rosto.
Essas patrulhas são integradas por cerca de dez soldados. Eles fazem rondam ostensiva preventiva nas áreas urbanas e nos campos de deslocados pelo terremoto. São as chamadas “zonas amarelas”, que inspiram cautela.
Uma criança pula no colo, duas outras se enroscam nas pernas, a do colo vai para as costas para dar espaço para outra, que já ocupa o espaço vazios entre os braços da visitante.

Essa é a recepção da capitã do Exército brasileiro Tatiana Microni recebe ao entrar no dormitório do orfanato Rosa Mine de Diegue, em Porto Príncipe. São cerca de 20 crianças com idade entre dois e sete anos, em uma sala com 70 metros quadrados, que param de brincar para dar atenção à militar.

Tatiana, mãe de duas meninas que ficaram no Brasil, desaparece no meio de tantos órfãos.

Ela e outros membros do batalhão de engenharia do Brabat 1 (1º Batalhão de Infantaria da Força de Paz) ajudam o orfanato periodicamente com a manutenção da estrutura do lugar e o abastecimento de água.

Para a capitã, a ajuda aos órfãos haitianos traz um pouco de paz espírito à rotina militar e a ajuda a suportar a saudade da família.

O orfanato, como grande parte de Porto Príncipe, não tem água potável e depende do abastecimento semanal do Brabat 1 para que as 71 crianças e adolescentes abrigadas não fiquem com sede.

Na saída, é preciso cuidado extra para desgrudar com carinho o pequeno haitiano que não larga a perna ou que está agarrado ao cinto da calça.

Um detalhe chama a atenção. Todas essas crianças têm a pele das mãos muito ressecada e feridas nos nós dos dedos e nos antebraços.

Segundo o presidente do Congresso Brasileiro de Dermatologia, Gilvan Alves, são marcas características da pele de uma pessoa que não se alimenta adequadamente, com dieta pobre em vitaminas e que, como resultado da má nutrição, pode ter o desenvolvimento prejudicado.
Distante cerca de 5.000 km de sua casa, em Espírito Santo do Pinhal (SP), a paulista Cláudia Aurieme recebe todos os dias, no Instituto São Francisco de Assis, em Porto Príncipe, 56 crianças. Lá, elas jogam bola, pintam, aprendem a ler, a escrever e têm aulas religiosas.

Cláudia atua ao lado de mais três irmãs --Zelinda, Emília e Alzira-- e um frei franciscano --Gabriel-- no projeto social e educacional, nos arredores da capital haitiana.

O grupo veio do interior do Estado de São Paulo para trabalhar no instituto, erguido pelos militares brasileiros no país com material doado por empresas brasileiras.

O projeto Semeando o Futuro oferece, além das aulas diárias, lazer a 150 crianças da região, aulas de artesanato e costura às mães delas e atendimento ambulatorial a cerca de 20 pessoas, todos os dias.

O instituto lembra uma chácara bem arborizada onde a cantoria infantil e o astral dos religiosos fazem esquecer, por um instante, o calor forte, a falta de infraestrutura do país e todos os problemas socioeconômicos que o Haiti enfrenta.

Soma-se ao ambiente a cozinha da irmã Alzira, que, do alto de seus 78 anos, faz alguns dos melhores biscoitos e sucos de manga que existem.
2013
2010
Não fosse pelo sorriso, o haitiano Jojo Flerime Victor, 13, passaria despercebido nas ruas empoeiradas da capital do Haiti, Porto Príncipe.

Essa alegria chamou a atenção da Folha em janeiro de 2010, dias após o terremoto que destruiu a cidade, quando Jojo, então com 10 anos, vestido com a camisa do Botafogo, disputava na simpatia os brasileiros frequentadores da feira semanal de artesanato do Brabat (Batalhão de Infantaria da Força de Paz), que acontece dentro dos muros do batalhão.

Com um sorriso forte e aos gritos de “bon bagay” (“amigo”, em creole), ele tentava ganhar a confiança de um soldado para carregar sua sacola com o resultado das compras daquela manhã de sábado.

Três anos depois, Jojo está proibido de entrar na feira e é temido pelas pessoas que passam diante dos portões do Brabat. Agora ele é membro de uma gangue de crianças e adolescentes batedores de carteiras à espreita de um soldado de folga ou de um turista desatento.

O sorriso de Jojo continua o mesmo, mas a atitude, agora, é desconfiada. Ele não sabe ler e escrever, mas fala corretamente o português, com um sotaque carioca. Com um casaco rosa, Jojo reconheceu o repórter da Folha imediatamente, abriu sorriso e partiu para dar um forte abraço.

Logo de início, perguntou se alguém poderia ajudá-lo com uma ONG que conta com uma escola e oferece uma vaga de emprego. Em todo momento, um grupo de dez crianças e adolescente se mantinham por perto, ouvindo a conversa e se escondendo da lente da câmera fotográfica. Ao ser perguntado com sobrevivia, Jojo correu os olhos de um lado a outro, antes de responder que fica por ali, sem fazer nada, com os amigos.

Enquanto não aparece uma vítima fácil, eles ficam de olho nos carros sem seguranças e nos caminhões de lixo. Periodicamente, um carro aberto entra para coletar os rejeitos do Brabat e de outros batalhões do local. Um dos companheiros do Jojo vigia a saída do caminhão e, assim que o carro chega à rua, dá o sinal para o saque. Antes que o motorista consiga entender o que aconteceu, os meninos somem com os restos de comida.

TERREMOTO
O menino voltou a aparecer atrás dos olhos do adolescente quando Jojo recordou o dia 12 de janeiro de 2010. Às 17h, ele disputava uma pelada com os colegas da rua Lycée Jean Marie-Vicent. O asfalto ralo sacudiu fortemente, várias vezes, e transformou o mundo de Jojo em um monocromático cinza.

Ele correu para casa e encontrou a mãe esmagada por uma laje. Seu pai e irmãos desapareceram naquele dia. Sem encontrar o que restava da família, ele dormiu uma noite na rua e, ao amanhecer, seguiu um carro blindado do Exército brasileiro, que voltava para o Brabat após uma missão de salvamento das vítimas.

Foi no batalhão brasileiro que o pequeno haitiano conseguiu comer, tomar água e vestir o uniforme do time carioca. Por lá ele ficou.

Quando a Folha procurou Jojo Florime, neste ano, os haitianos funcionários do Brabat se lembraram dele e alertavam: “Jojo é problema”.

Jojo ainda não encontrou o pai e os irmãos. Dorme na rua. Encontrou seu novo lar nas vielas perto dos batalhões brasileiros, onde os crimes com violência são raros. O analfabetismo diminui a possibilidade de trabalho, em um país com taxa de desemprego de 52,1% nas áreas urbanas.
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