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A voz do morro

As comunidades são parte do cenário do Rio de Janeiro. Surgiram com as primeiras tentativas de expulsar a população mais pobre de áreas nobres da cidade e hoje se espalham por toda a cidade. Conheça a história das favelas do Rio

Século 19. O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravatura. Os milhares de ex-escravos que ganharam a liberdade tiveram de encontrar uma nova forma para sobreviver e buscar espaço nas cidades. Um movimento que transformou e ainda influencia a organização do Rio de Janeiro.

A escravatura é abolida em 1888. Sem casa e dinheiro, ex-escravos ocupam o Rio, milhares deles vindos das lavouras do interior do Estado.

Para essa população, a única opção de moradia eram os cortiços, tipo de habitação bastante precária que aglutinava famílias inteiras em um espaço muito pequeno.

Para tentar remover os vestígios do Brasil colonial, o governo inicia um processo de modernização após a Proclamação da República, em 1889. Cortiços são demolidos.

Em 1897, acaba a Guerra de Canudos, um dos conflitos mais sangrentos da história do Brasil. Um enorme contingente de ex-militares fica sem salário e sem emprego.

Após terem feito uma série de protestos por pagamentos prometidos e não cumpridos, esses militares ocupam também o morro da Providência, que já abrigava uma grande quantidade de ex-escravos.

Ao chegarem na cidade do Rio, em 1897, esses soldados passaram a se referir ao morro da Providência como "morro da favela". A favela é uma vegetação que recobria um morro nos arredores da cidade de Canudos.

A crise habitacional ocasionada pela demolição dos cortiços se intensifica. Um número cada vez maior de desabrigados gera uma ocupação substancial no morro da Providência.

Demolir! Construir! Modernizar! O Rio de Janeiro do século 20 segue a toada dos grandes centros urbanos do mundo. Em 1903, o prefeito Pereira Passos surge como um trator em seu projeto conhecido como bota-abaixo, abrindo avenidas e demolindo casas.

As favelas se tornam alternativa diante da diminuição da oferta de moradia e da alta dos aluguéis. São descritas pela mídia como lugares anti-higiênicos e desumanizados.

Escritores como João do Rio, no entanto, rompiam essa visão estereotipada e exaltavam a riqueza cultural da favela, como em sua crônica de 1911 sobre o “celebrado morro” de Santo Antônio.

A população pobre, que precisava morar perto do trabalho por conta da limitação dos transportes públicos, passa a ocupar as favelas no centro e na zona sul, únicas regiões com trens e bondes.

O Governo Vargas inicia, em 1937, uma época beligerante que marcaria para sempre os habitantes das favelas cariocas. Os moradores dessas áreas se tornam alvo de remoções. Programas de transferência e alojamento provisório vão pipocando pela cidade, criando animosidade entre as autoridades e os removidos

Os moradores dessas áreas se tornam alvo de remoções. Programas de transferência e alojamento provisório vão pipocando pela cidade, criando animosidade entre as autoridades e os removidos.

Alguns projetos, como os Parques Proletários Provisórios, na década de 40, e a Cruzada de São Sebastião, nos anos 50, abrigam moradores das favelas; 17 delas, na Lagoa e no centro, foram destruídas para formar parques proletários.

A Cruzada São Sebastião, liderada por dom Helder Câmara, cria em 1955 um conjunto habitacional no Leblon, a primeira experiência de alojar removidos perto de onde viviam. O modelo reforçava a ideia de comunidade, fundamental para a afirmação social dos moradores.

A década de 60 foi marcada pela consolidação de um movimento antifavela, liderado por Carlos Lacerda, primeiro governador eleito do Estado da Guanabara.

O objetivo dessas ações era ocupar o subúrbio com indústrias e habitações para os pobres.

O regime militar foi palco do ápice dessa política de remoções, que encontrava resistência das faverlas, cujas principais lideranças foram cooptadas ou subjugadas.

Resultado: 27 favelas destruídas, com a remoção de mais de 40 mil pessoas para outras áreas da cidade e novos conjuntos habitacionais erguidos.

A partir de 1975, ocorre o esgotamento da política de remoção, principalmente pelos problemas financeiros do BNH, o órgão financiador dos programas habitacionais. O abandono do poder público favoreceria a prática clientelista entre habitantes das favelas e políticos.

Chegam os anos 80 e, com eles, a força avassaladora do tráfico de drogas, o primeiro sintoma grave do vácuo deixado pela ausência de poder público nas favelas.

No início da década de 90, os cariocas já tinham se acostumado com expressões como "bala perdida" e "área de risco", uma nomenclatura que escancarava a questão da violência urbana, invariavelmente identificada como o principal problema causado pelas favelas.

Traficantes com formação adquirida a partir da convivência com militantes políticos formam as bases do Comando Vermelho, facção criminosa que dominou sozinha o tráfico até os anos 90, com complexas rotas internacionais, armamento pesado e fugas cinematográficas.

Lucros astronômicos do tráfico de drogas geram um levante de facções rivais como o Terceiro Comando e Amigos dos Amigos.

Explodem as guerras. Muito sangue é derramado.

O tráfico dominava as favelas, mas as remoções pareciam ter sido eliminadas do vocabulário da cidade. Começa a se consolidar o processo de urbanização das favelas.

Em 1995, surge o programa Favela-Bairro, na prefeitura de Cesar Maia, com grande financiamento estrangeiro, mas alcance limitado.

No século 21, no entanto, voltam as políticas de remoção, tendo como justificativa a preparação da cidade para sediar o Pan-2007, a Copa-2014 e a Rio-2016.

Em 2009, para conter a expansão das favelas, o governo anuncia a construção de muros em 11 comunidades da zona sul. A medida gera críticas, como as do presidente Federação das Associações de Moradores de Favelas do Estado do Rio, Rossino de Castro.

Um ano antes, em 2008, as favelas já haviam vivido a implantação de um novo projeto de segurança pública: as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).

Um projeto que levou à expulsão -ainda que momentânea- do tráfico...

...e à redescoberta dos morros por moradores do asfalto e turistas.

Os bailes funk, a partir dos anos 90, tornaram-se uma das principais expressões culturais das favelas, unindo morro e asfalto.

Mas passaram a rarear nas favelas com UPPs, já que dependiam de autorização dos comandantes militares locais, quase sempre negada.

A favela se torna 'hype".

Algumas ganham teleféricos, albergues e festas que aglutinam moradores e turistas.

Points como o mirante do Arvrão, no Vidigal, são disputados graças ao visual deslumbrante.

Mas a realidade dos moradores não é festiva. Em julho de 2013, na Rocinha, a maior favela carioca, com cerca de 70 mil moradores, o ajudante de pedreiro Amarildo de Souza desaparece, dando origem a uma série de protestos populares. Segundo o Ministério Público, ele foi torturado e morto por policiais da UPP.

O caso, amplamente divulgado, mostrou a força de mobilização dos moradores da favela, articulados em várias instâncias: ações judiciais, associação de moradores, meios acadêmicos e imprensa.

Estamos na era da favela.com, onde todo e qualquer tipo de abuso ou repressão policial é denunciado em blogs, redes sociais e aplicativos, como o Whatsapp.

“Com mais de um século de história, quase 1,5 milhão de moradores, berço de algumas das mais marcantes criações culturais do rio, como o samba, a escola de samba, o bloco de Carnaval, a capoeira, o pagode de fundo de quintal, o pagode de clube e o bailes funk, as favelas mostram que cresceram muito além da ideia de áreas segregadas.”

Alba Zaluar, no livro "Um Século de Favela"

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