Indústrias da Covid-19

Surtos de coronavírus em frigoríficos e mineradoras fazem casos disparar no interior do país

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O coronavírus já chegou a 99,4% das cidades, ou seja, 5.538 dos 5.570 municípios brasileiros

Na maior parte das cidades menos de 2% da população teve resultado positivo para o vírus. Isso equivale a menos de 2.000 casos por 100 mil habitantes. É a parte mais clara do mapa.

Mas em 886 cidades, de um total de 5.570, o número de casos está acima desse patamar.

Praticamente um terço delas está na região Norte. A baixa infraestrutura de saneamento e saúde pública são as principais causas, e há indícios também de que a aglomeração causada pelas filas para receber o auxílio emergencial do governo tenham contribuído para aumentar a contaminação.

Mas há casos que fogem dessa regra. No Pará, as cidades com maior concentração estão na região do complexo do Carajás, da mineiradora Vale. O município de Canaã do Carajás (PA) é a 13ª cidade com maior taxa de contaminação entre os municípios brasileiros.

A vizinha Parauapebas (PA) está em 11º no ranking. Juntas, as cidades têm 23 mil casos e 193 óbitos da doença, para uma população de cerca de 245 mil habitantes. Há um mês, eram 10 mil casos, e 45% correspondiam a trabalhadores da Vale ou suas terceirizadas.

Segundo a Vale e a prefeitura, o alto índice é consequência do elevado número de testes feitos pela empresa, que testa rotineiramente seus funcionários e fornece testes para a prefeitura. Quantos mais testes, maiores as chances de se detectar casos positivos, mesmo que assintomáticos.

Em Rondônia, São Miguel do Guaporé tem 824 casos para uma população de 23 mil habitantes, ou seja, 3,6% da população infectada. A Justiça suspendeu temporariamente atividades do frigorífico da JBS em junho após casos aumentarem mais de 1.000% em menos de 20 dias.

Há vários casos semelhantes envolvendo frigoríficos em cidades do interior pelo país, principalmente no Sul e no Centro-Oeste.

Rio Verde (GO), onde 3,3% da população já testou positivo, um complexo da BRF com mais 8.000 funcionários interrompeu temporiaramente as atividades após registrar vários casos de coronavírus (quando).

Guia Lopes da Laguna (MS) tem a segunda maior incidência no estado. Em maio, um caminhoneiro que fazia entrega no Brasil Global foi o vetor –após contato com funcionários, o vírus se espalhou pela empresa, que suspendeu temporariamente as atividades. Dos 299 casos, 130 foram registrados entre os 311 empregados da planta.

Mas é na região Sul onde se vê a maior impacto dos frigoríficos na disseminação do coronavírus. Muitas das cidades que passaram do patamar de 1% de infectados estão concentradas numa mesma região do interior.

Em Santa Catarina, que tem ao menos 3.132 trabalhadores de frigoríficos contaminados segundo o MPT, um funcionário com teste positivo para Covid-19 foi flagrado trabalhando em maio, em Ipumirim. Procurada, A JBS não comentou. Ipumirim tem 7.530 habitantes e 140 casos.

No Paraná, os primeiros casos em indígenas ocorreram na aldeia Tekoha Ocoy, em São Miguel do Iguaçu. A doença foi levada à comunidade por um dos 45 funcionários indígenas do frigorífico Lar Cooperativa Agroindustrial, na vizinha Matelândia.

No Rio Grande do Sul, Lajeado tem mais de 3.000 casos e registrou surtos em dois frigoríficos, que empregam cerca de 5.000 trabalhadores. Nova Araçá (RS), com cerca de 4.500 habitantes e 517 casos confirmados, é a 6ª em percentual de casos no país, a maioria deles são originários do frigorífico local. Foram 462 contaminados —não há surto no momento.

Outras cidades gaúchas, como Passo Fundo e Caxias do Sul, também tiveram surtos.

Fonte: MPT (Ministério Público do Trabalho), Secretarias estaduais de Saúde, Vale, Prefeitura de Parauapebas e TRT (Tribunal Regional do Trabalho) da 4ª Região. Dados atualizados em 24 de agosto.