Amanda Marfree | Histórias de vítimas do novo coronavírus - Equilíbrio e saúde - Folha de S.Paulo

Aqueles que perdemos

Amanda Marfree

Ativista enfrentava trans e gordofobias

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foto de Amanda Marfree

Amanda Marfree, 35

orientadora socioeducacional

faleceu em 23.jun.2020

O movimento transexual perdeu uma importante ativista em junho, mês do orgulho LGBTI: Amanda Marfree morreu na terça-feira (23), aos 35 anos. Atualmente, Amanda trabalhava como orientadora socioeducacional do Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD) em São Paulo, serviço que promove ações de apoio e acolhida social a gays, travestis e transexuais. A conquista de um emprego CLT, porém, é recente. Natural de São Gonçalo (RJ), Amanda deixou a escola por causa do preconceito, e tanto lá quanto na capital paulista se prostituiu para sobreviver. Só em 2015 Amanda se formou no ensino médio, por meio do Transcidadania, programa municipal que permite que travestis, transexuais e homens trans retomem os estudos. A militante disse à Folha, em reportagem de 2015, que parou "de estudar porque sofria bullying". "Preferi desistir do que sofrer uma agressão. Quando comecei a me transformar, tudo mudou. A sociedade te fecha as portas. A realidade foi enfrentar a madrugada." Quando a gestão Fernando Haddad (2013-2016) começou um projeto de retificação dos documentos, de nome e gênero, a advogada Iara Matos foi a responsável pelo caso de Amanda. "A retificação para ela [em novembro de 2016] foi uma mudança de patamar, como ter uma conta bancária no seu nome." Definida por várias pessoas como doce, alegre e preocupada com os outros, ela se dedicou a ajudar a população trans. Era agente de prevenção voluntária, distribuindo camisinha e panfleto com orientação de prevenção à Aids. "Após seu falecimento, surgiram depoimentos de pessoas que ela ajudou, tanto com apoio moral quanto financeiro", diz Iara. Pretendia se candidatar a vereadora pelo PSOL com o Coletivo DiverCidadeSP. A reverenda Alexya Salvador, outra integrante do grupo, conhecia Amanda havia alguns anos. "Ela foi tão oprimida, sofria transfobia e gordofobia dentro do movimento por estar acima do peso. Era pobre, mas usou isso para transformar a vida, em prol da comunidade." Quando Alexya adotou seu primeiro filho, em 2015, a amiga ficou muito feliz. "Ela não tinha o desejo de ter filhos, mas sabia que era mãe das ruas, de pessoas que não tinham família." Segundo a reverenda, Amanda era amorosa assim por causa de dona Celi. A mãe vinha a São Paulo todo ano no aniversário da filha, em 26 de janeiro. "Ela vinha e preparava os seus pratos preferidos." Desde que começou a pandemia, Amanda passou a levar cesta básica, remédio e roupas para travestis e transexuais em dificuldades. A quem se mostrava preocupado com o fato de se colocar em risco, por ser obesa, ela respondia que precisava fortalecer o coletivo. "Ela não estava contente com as ações do movimento. Ela fazia muito mais que distribuir cesta básica, mostrava a resistência", afirma Raphaela Fini, sua amiga. Em suas últimas conversas, Amanda disse estar muito cansada, revoltada. "A morte dela é emblemática dessa necropolítica. Falam que ela era heroína, mas a que preço?"