Sebastião Salgado na Amazônia - Ashaninkas

<b>Ashaninkas</b> Reportagem acompanha nova expedição do fotógrafo brasileiro à floresta amazônica, desta vez para documentar a valente etnia ashaninka, que depois de sobreviver a meio século de batalhas se vê agora diante da ameaça de caçadores, traficantes, madeireiros e mudanças climáticas, que interferem no rio, nas plantas e nos animais dos quais depende a sua vida

Vencedores de várias lutas, índios guerreiros do Acre encaram novos invasores

Vencedores de várias lutas, índios guerreiros do Acre encaram novos invasores

Após mais de 500 anos de luta por sua independência e cultura tradicional, nos quais sobreviveram ao império inca, aos espanhóis, que destruíram os incas, aos empresários da borracha, que os escravizaram, e a outros ataques, os índios ashaninkas, no Acre, enfrentam nova onda de ameaças.

Atualmente, elas são materializadas por invasores ilegais -caçadores e traficantes de drogas- e madeireiras, incentivadas por leis recentemente aprovadas no Peru, que autorizam a abertura de estradas em áreas de preservação da floresta amazônica junto às suas terras.

Os índios assistem ainda ao avanço de uma ameaça global que os assusta: mudanças climáticas têm alterado de forma dramática o ambiente onde vivem e o comportamento das plantas e dos animais de que dependem para viver.

Para os ashaninkas, os brancos enlouqueceram a natureza. "Antes tinha calendário, as coisas aconteciam em seu tempo. Agora está tudo bagunçado", diz Moisés Piyãko, xamã na aldeia Apiwtxa, principal comunidade da etnia no país.

Ele aponta o exemplo do rio Amônia, que passa poucos metros abaixo de sua casa: "Antigamente, o rio subia em novembro e ficava cheio até março. Neste ano, a primeira chuva forte caiu em fevereiro, e só aí o rio começou a subir. Com isso, os peixes maiores desapareceram".

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Moisés descreve muitas outras mudanças que a natureza está sofrendo, inclusive o aumento da temperatura nessa área da selva que parece um santuário inalterado.

Também chamados de campas, os ashaninkas se espalham por terras no extremo oeste do Acre, onde são cerca de 1.700, e no Peru, com cerca de 100 mil pessoas.

A terra indígena fica às margens do rio Amônia, no município de Marechal Thaumaturgo (560 km a oeste de Rio Branco e 2.800 km a noroeste de São Paulo, em linha reta).

A cidade é a única do estado do Acre que tem um índio como prefeito: Isaac Piyãko, ashaninka, venceu a eleição de 2016 com 56% dos votos. A etnia compõe apenas cerca de 5% da população, de 18 mil pessoas.

A vitória de Piyãko é atribuída à sua profissão: professor da rede pública, a mesma ocupação do vice-prefeito e de 2 dos 9 vereadores.

Os ashaninkas são um dos grupos indígenas cuja história é conhecida há mais tempo: há registros de seu relacionamento econômico e cultural com o império inca, que das montanhas do Peru dominou grande parte da América do Sul até a chegada dos espanhóis.

A antropóloga francesa France-Marie Renard-Casevitz resume o intercâmbio entre ashaninkas e incas na época: "Penas, peles, algodão, tecidos e plantas (grãos, madeira) sobem a serra, enquanto o metal (machado de cobre, joia de ouro), talvez pedras semipreciosas, lã e outros tecidos descem para a floresta". A própria autodenominação da tribo contém o nome dos antigos parceiros.

Nas histórias contadas pelos europeus que dominaram o Peru a partir da década de 1530, os ashaninkas eram descritos como guerreiros da floresta quente que, por sua valentia e lealdade, serviam de guarda-costas para os últimos nobres. Estes, depois de perderem a capital, Cusco, se refugiaram em uma área próxima à floresta amazônica.

Ali, protegida por seus soldados, acostumados à vida na montanha, e pelos índios naturais da Amazônia, a corte inca sobreviveu 40 anos na cidade escondida de Vilcabamba. Ao ser capturado pelos espanhóis, em 1572, o último inca estava cercado de guerreiros ashaninkas.

Chamados pelos incas de "antis" ou "andes" (dependendo da pronúncia na língua quechua), o nome do grupo também sobrevive na geografia do continente como uma memória do tempo pré-colombiano. A área onde moravam os ashaninkas, nas encostas da cordilheira, ao norte de Cusco, era nomeada Antisuyo, terra dos antis.

Os espanhóis entenderam a palavra como se fosse a designação das montanhas e passaram a chamar assim toda a cordilheira, da Patagônia à Colômbia. Os Andes são, portanto, um registro da antiguidade da presença ashaninka.

O jornalista Leão Serva viajou à Terra Indígena Kampa do Rio Amônia a convite da Associação Ashaninka Apiwtxa