Sebastião Salgado na Amazônia - Yawanawa

<b>Yawanawás</b> O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado faz uma expedição às terras da comunidade yawanawás, no Acre, que vive seu renascimento cultural e é referência em empreendedorismo &ndash;após ter sido dizimada e perseguida nos anos 1970

Keyá aplica a chamada 'vacina' do sapo em Marcílio

Festa e ayahuasca atraem turistas de todo o mundo

Festa e ayahuasca atraem turistas de todo o mundo

"Você já tomou a medicina?" A pergunta é repetida pelo jovem yawanawá, enquanto distribui a beberagem entre dezenas de pessoas que participam de um ritual de ayahuasca.

Diante da mesa lotada de jarras com a infusão e copinhos para pequenas doses, o rapaz, com um cocar de penas de gavião-real, se posiciona como um padre diante do altar.

O público se senta em bancos que formam um círculo em torno de um grande espaço aberto onde há uma fogueira no meio, o terreiro. Nesse templo, a nave é um vasto céu de anil, em uma noite em que a lua cheia ilumina a aldeia Nova Esperança.

A todos os que respondem "não" , o jovem diz: "Fique sempre tranquilo", e em seguida entrega um pequeno copo parcialmente cheio.

Chamada "uni" pelos yawanawás e "Daime" em cultos religiosos não indígenas, a poção ritual que das matas do Acre se espalhou pelo planeta pode provocar poderosos enjoos. Por isso, recomenda-se que neófitos provem com cautela e não tenham medo da viagem. "Tudo que vem passa", explica o líder Bira.

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Muitos grupos reivindicam a paternidade da bebida, feita da mistura do cipó mariri (ou caapi) com as folhas da planta chacrona. Ela é consumida por ao menos 72 grupos indígenas da Amazônia, mas não erra quem apontar os yawanawás como seus usuários tradicionais de maior visibilidade mundial.

Estudos revelaram a presença de ayahuasca em panelas encontradas em sítios arqueológicos de 5.000 anos. O nome revela seu uso por habitantes do antigo império inca, já que se trata de uma palavra quéchua, a língua dos incas: "aya" significa espírito e "huasca" quer dizer cipó.

Os yawanawás recebem anualmente milhares de turistas para festivais que celebram sua cultura e seus rituais, com ingressos entre US$ 2.000 (R$ 7.800) e US$ 5.000 (R$ 19.500), dependendo do tempo de estadia. Quando promovem festas, os hotéis de Cruzeiro do Sul ficam lotados, como os voos que ligam seu aeroporto aos grandes hubs internacionais do país.

Nesses festivais, pode-se encontrar gente de todos os cantos do planeta nos galpões construídos pelos índios para abrigar até 700 pessoas.

Cantoria, incenso e fogo amplificam efeito inebriante da bebida

A cerimônia começa depois do jantar, em que se recomenda uma refeição leve. Por volta de 21h, as pessoas já estão sentadas no círculo em torno da fogueira. Quando o jovem de cocar se coloca à frente da mesa, logo se forma diante dele uma fila de cerca de 30 pessoas. Há mais índios do que convidados naquele encontro fora de temporada, no centro da aldeia Nova Esperança.

O primeiro efeito da ayahuasca é um certo enjoo. Algumas pessoas descrevem fortes ânsias de vômito logo após beber o "remédio". Em seguida, é descrita uma sensação de alívio, em que a alma é tomada por visões. É a "miração", termo do português popular que acabou consagrado pelos rituais religiosos associados ao Daime.

Tecnicamente, é uma alucinação, estado alterado da mente. A droga atua em centros ligados à visão. Durante essas visões, alguns dizem encontrar ancestrais, outros, que antecipam cenas de seu futuro. Há quem faça previsão de doenças e quem relate entender um conflito no futuro. Cada um tem sua própria miração.

A alteração da percepção fascina muitos e assusta outros. Não poucos sentem medo. É preciso ter calma para resistir às horas de "viagem", que às vezes viram "bad trips".

Logo depois que toda a fila toma a "medicina" começam os cantos, longos e repetitivos. Forma-se uma roda de dança no meio do espaço em que se desenvolve o ritual, do tamanho de uma quadra de vôlei.

As músicas, em ritmo repetitivo, funcionam como mantras. A harmonia, com apenas dois acordes, lembra a de outros hinos religiosos. O coro canta sempre em uníssono, reforçando a simplicidade.

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A cantoria, a fogueira e o cheiro de incenso –que acendem em grandes tachos para expulsar os maus espíritos--, somados ao efeito da ayahuasca, resultam em um ambiente inebriante. É difícil avaliar o que provoca o estado alterado de consciência, tantos são os estímulos.

Depois de alguns minutos de cânticos, o jovem coordenador dos trabalhos se encaminha de volta à mesinha e serve nova rodada de ayahuasca. A adesão é quase total entre quem havia tomado uma primeira dose. Na terceira rodada, nem todos repetem. A adesão vai diminuindo. Depois das 23h ninguém mais busca a bebida e a mesinha é recolhida.

O efeito, no entanto, persiste. Muitas pessoas recebem passes do xamã (à época, fevereiro deste ano, Yawa Runi estava vivo), outras inalam rapé, e assim a comemoração vai até as 5h do dia seguinte.

Enquanto algumas pessoas dançam no centro do terreiro, o pajé cuida de outras, que se mantêm sentadas. Ele pergunta se há algo que as preocupa, um mal-estar, uma tristeza. Em seguida, faz orações e sopra sobre a pessoa a fumaça vinda da queima do incenso de breu branco, ou almecegueira, árvore aromática curativa. Os sopros são acompanhados de um som que se parece com "ôsh". O religioso percorre as costas, os ombros e a cabeça da pessoa. Ao terminar, passa ao próximo da fila, numa sequência demorada.

Entre os yawanawás, o consumo da ayahuasca é com frequência acompanhado da inalação de rapé. O pó cinza à base de tabaco é soprado pelo xamã para dentro do nariz da pessoa, que o recebe por meio de um instrumento em forma de "v", de taquara, com cerca de 40 centímetros.

O pajé tem em sua mão um pequeno recipiente com rapé. Ele coloca um pouco do pó em uma ponta do canudo e direciona a outra para uma das narinas da pessoa; respira fundo e de repente dá um sopro muito forte. O que recebe o pó leva as mãos à narina, enquanto mantém os olhos cerrados.

O rapé irrita a mucosa do fundo das fossas nasais e ali é parcialmente absorvido; outro tanto desce para a boca, provocando um gosto amargo e o espessamento da saliva. O cuspe ganha uma cor acinzentada.

O rapé é a mistura de tabaco seco com cinzas da casca de "txunu" (pau-pereira). Tudo é peneirado e pilado, resultando em um pó leve.

"A maior parte de nossa formação espiritual depende dos sonhos, por isso nós precisamos sonhar. O rapé abre o sonho, nos faz sonhar e lembrar", explica o líder Biraci.

O efeito é um despertar, espécie de compensação para o torpor que a viagem da ayahuasca provoca. É como se a mente ganhasse clareza, e o corpo, energia extra para interagir.

Outra medicina pela qual os yawanawás são conhecidos é a "vacina do sapo" contra doenças físicas ou espirituais, como dizem. Na verdade é usada uma rã voadora, chamada "kambô" (Phyllomedusa bicolor).

É feita uma leve incisão na pele, no braço ou na perna, com a ponta de uma vareta levada ao fogo. Em seguida, se inocula no local a secreção da pele da rã.

O veneno tem composição complexa, com alguns elementos semelhantes aos de um derivado do ópio, que reduz a dor, e outros que dão taquicardia. A pessoa também vomita e tem forte sensação de calor.

Tradicionalmente, a vacina do sapo era usada para melhorar a performance do índio na caça. "O sapo traz sorte, alegria, deixa a pessoa mais atenta", explica Bira. Usa-se também o veneno em caso de doenças, para purificação. "A pessoa vomita, põe todos os problemas para fora", diz o líder yawanawá.

Daime não vicia e ajuda a tratar dependência química, diz médico

A ayahuasca é um alucinógeno que não causa dependência, segundo Dartiu Xavier, 63, chefe do serviço de dependência química da Unifesp.

O psiquiatra, que foi consultor do Ministério da Saúde e da Justiça, integrou a comissão que discutiu a liberação da droga para cultos, entre o fim dos anos 1990 e início dos 2000.

O grupo, que reunia técnicos e religiosos, concluiu que "o uso ritualístico, com fundamentação religiosa, não pode ser proibido", como explica Xavier. "A comissão ajudou a sedimentar o conceito que em seguida foi adotado também nos EUA, quando a ayahuasca chegou lá", diz.

Para o especialista e pesquisador, a ayahuasca é um alucinógeno, do ponto de vista científico. "As pessoas têm usado a palavra 'enteógeno', mas ela só serve para tentar evitar o estigma associado à palavra 'alucinógeno'". Enteógeno é a tradução de um neologismo em inglês, derivado do grego, que remete à capacidade de induzir a pessoa à visão de deus.

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Para Xavier, o daime tem efeito semelhante ao da mescalina e do LSD. A mescalina, consumida nos EUA em ritos da Igreja Nativa Americana, é permitida nesse contexto: "Esse uso da mescalina é muito parecido com o da ayahuasca nos ritos do Daime".

O departamento chefiado por Xavier na Unifesp foi, em parceria com a Universidade da Califórnia, o primeiro laboratório a estudar a ayahuasca. Chamou a atenção do professor e de seu departamento o fato de dependentes graves, como alcoólatras, relatarem o abandono do vício após a adoção de um rito religioso ligado ao daime.

Além de não causar dependência, o chá contribui, em muitos casos, para tratar a compulsão –"miraculosamente", diz. "Não conseguimos concluir se isso se deve só ao efeito químico ou se é o rito, o fato de pertencer a uma comunidade acolhedora."

Floresta é farmácia para tudo

A futura Aldeia Sagrada, que deverá ser erguida no local onde aconteceu o primeiro contato entre yawanawás e seringueiros, é uma homenagem aos ancestrais ali enterrados e à floresta.

Além das moradias, está prevista a implantação de uma estrutura para cursos de cultura yawanawá. A construção vai seguir o estilo das malocas indígenas tradicionais, que eram compartilhadas por diversas famílias. "Nessas casas, todo mundo vive e come junto. Marido não bate em mulher, os filhos não passam fome", diz o cacique Bira.

Em volta da futura aldeia, uma área de floresta com cerca de dez hectares foi usada para o cultivo de ervas medicinais usadas pela comunidade em ritos religiosos e de cura.

Bira conduz a reportagem a um passeio em que vai explicando os supostos poderes de cada uma daquelas espécies: "Você vê aquela planta com umas folhas grandes, que parecem uma bunda? Sabe quando você tem uma filha jovem, recém-casada, que não quer ficar em casa, que quando o marido sai para trabalhar ela também quer logo sair, ir ao vizinho e coisa e tal? Você pega uma folha grande daquelas, esquenta e faz ela sentar em cima. Logo ela acalma e fica mais caseira. O mesmo vale para o marido".

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À medida que caminha, o líder aponta a vegetação e ensina: "Aqui não é bom que as mulheres caminhem, está cheio de plantas cujo cheiro faz com que elas queiram namorar. Então, uma mulher que sinta esse cheiro, não importa se é casada ou não, ela vai querer transar com uma pessoa".

Uma outra erva medicinal ajuda a mulher a engravidar: "Um advogado amigo nosso, do Rio de Janeiro, estava casado havia 12 anos. Eles queriam ter filhos, mas não conseguiam. Ele veio aqui e pediu para tomar o nosso remédio. Agora acabou de nascer o filho deles".

Tem remédio para tudo, segundo Bira: ervas para bebês que choram muito, viagra natural e planta que causa o efeito contrário, outra que faz bem para epilepsia.

"Agora, você vê a responsabilidade de quem lida com esses poderes: se uma pessoa ambiciosa tem acesso a isso, o que será que ela pode querer fazer? É preciso guardar com rigor as coisas, e só dar acesso restrito a elas, para que só pessoas responsáveis e preparadas possam conhecer e usar", afirma.

Os antigos yawanawás eram polígamos, uma prática que vem reduzindo, porque os casamentos com várias mulheres atribuem ao marido a multiplicação das obrigações; é preciso ter condições de sustentar a casa, os filhos e a mulher; se quiser ter duas mulheres, deve dar igual a ambas. E assim sucessivamente.

Bira conta um chiste didático, a história de um pajé mais velho, com várias mulheres. Quando alguém dizia que uma de suas mulheres estava flertando com outro homem, ele respondia: "Que bom, tem alguém me ajudando a cuidar da casa". Se a pessoa insinuava que a mulher poderia engravidar, ele dizia: "Mas o filho será meu também". Para um líder tribal, quanto mais filhos, maior é poder de influência e a acumulação de riquezas.

A riqueza das florestas traz também benefícios indiretos. Um deles é o de atrair peixes quando o rio sobe, no inverno amazônico. Nesse momento, as águas ultrapassam as margens, chegam ao chão da floresta e "puxam" as frutas caídas, chamando os peixes.

Os yawanawás têm uma explicação para isso. "Quando chega a hora da água subir, o espírito de um peixe vai até as frutas, come algumas e derruba outras. Nesse momento, ele sinaliza para o rio que chegou a hora da água subir."

Árvore gigantesca é a sagrada ligação entre o céu e o chão

Por atingir até 70 metros de altura, a sumaúma (Ceiba pentandra) é, para os índios, a ligação entre chão e céu. E casa dos animais mais poderosos de cada plano: da sucuri, grande serpente do chão, que se esconde sob suas raízes; da onça, que dorme entre raízes e galhos mais baixos; do gavião-real, que habita sua copa. A árvore também sequestra pessoas. Na história dos índios, pai e filho dormiram perto de uma sumaúma. Quando o pai acordou, o filho tinha sido levado para o alto e ele ouviu sua voz: "Pai, pode ir embora, porque não há como subir ou descer daqui". Devido a essa sacralidade, a sumaúma não pode ser usada em rituais.

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