Cemitérios em tempos de coronavírus

Milhares de covas estão abertas nas maiores necrópoles de São Paulo à espera de um amontoado de vítimas da Covid-19

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Cemitérios de São Paulo estão se convertendo em trincheiras de covas para receber o volume de vítimas da Covid-19 que crescem exponencialmente.

A pedido da Folha, a empresa norte-americana Maxar, que possui uma constelação própria de satélites que captam imagens das superfície terreste, captou imagens exclusivas de dois dos maiores cemitérios populares de São Paulo onde estão sendo enterrados os mortos pelo novo coronavírus. Juntos, os cemitérios Vila Formosa e São Luís absorveram mais de um terço dos sepultamentos realizados na cidade em 2019.

Comparando as imagens de satélite com outras feitas a partir de drones é possível contabilizar enterros e abertura de novas covas na cidade após a chegada da Covid-19.

Localizado na zona leste de São Paulo, o cemitério Vila Formosa é o maior da América Latina. Em 2019, o local foi responsável por 25% dos enterros feitos em cemitérios públicos. Popular, o Vila Formosa possui covas rasas e temporárias – por ali, não há jazigos e nem túmulos de alvenaria

As imagens de satélite mostram a mesma quadra no cemitério da Vila Formosa, em momentos diferentes. A medida que os enterros avançaram, novas covas foram abertas no lugar das antigas, que foram exumadas

Na última quinta-feira (30), toda a quadra já estava preenchida com novas covas, que tinham poucos centímetros de distância entre si. A maioria é decorada com arranjos florais pelas famílias dos mortos, mas muitas não têm nenhum tratamento especial

Comparando as imagens, é possível estimar um ritmo de preenchimento de covas. Entre o dia 9 de abril e 17 de abril aconteceram, ao menos, 247* enterros nesta quadra, de mortos pela Covid-19 e outras causas. Em média, foram 30,8 sepultamentos diários. Em 2019, a média diária foi de 15,8.

Há ainda outra quadra menor e que também recebeu enterros, mas está encoberta por árvores

Na última semana, o ritmo de abertura de covas aumentou após a prefeitura autorizar que 13 mil sepulturas nos cemitérios de São Paulo –sendo 8.000 delas no cemitério Vila Formosa. Ao lado, as imagens mostram cerca de 1.200 covas abertas separadas por três quadras

Na última semana, outra quadra próxima também foi aberta com ao menos mil novas covas

Na zona sul da capital, o cemitério São Luiz está localizado entre o Jardim São Luís, o Capão Redondo e a Represa de Guarapiranga. Também é um cemitério popular, com covas rasas e temporárias. Em 2019, foi responsável por 11% dos sepultamentos da cidade

Ao lado, as imagens mostram a quadra do cemitério que mais tem tido enterros de vítimas de Covid-19 e de outras causas. As fotos também mostram que, entre março e abril, foram abertas novas covas

No dia 29 de abril, a quadra ainda não estava completamente preenchida. Há fileiras de covas abertas ao lado daquelas em que os enterros são recentes

Nesta quadra, aconteceram, ao menos, 366 sepultamentos entre os dias 10 de março e 29 de abril; em 29 de abril, havia 159 covas abertas. Em outra quadra, ocorreram cerca de 39 enterros no período

A quadra tem sido preparada para receber, exclusivamente, vítimas da Covid-19. Ao lado, a imagem de satélite mostra que o local estava coberto por vegetação no início de março

Do dia 22 de abril, a imagem de drone mostra 178 covas abertas e outras 25 preenchidas por vítimas do novo coronavírus

*As contagens são baseadas na contagem a partir de fotografias de drone. Outras imagens foram utilizadas para fazer a contagem de covas encobertas por árvores