Hipercidades

Uma jornada pelas cidades com mais de dez milhões de habitantes no mundo

Qual é a cara da cidade do século 21? Com essa inquietação em mente e uma câmera a tiracolo, o fotógrafo Tuca Vieira começou o projeto "Hipercidades", que percorrerá dezenas de cidades pelo mundo com mais de dez milhões de habitantes.

Segundo um relatório da ONU, 54% da população mundial já vive em cidades. Eram 3,9 bilhões de pessoas em 2014. Espera-se que, até 2045, esse número chegue a seis bilhões.

"Estamos em um momento de transição muito importante, a população urbana superou a rural no mundo e passaremos a viver em grandes cidades. Me propus a visitar algumas delas", conta Tuca.

Ele foge dos cartões-postais, exaustivamente retratados por turistas em redes sociais, e se dedica às zonas intermediárias, entre centros e periferias, onde busca retratar o cotidiano simples de quem vive e trabalha ali.

A história do Brasil (pelo menos nos meus livros de escola) começava aqui, com um tiro de canhão e um conquistador de 21 anos de idade.

Maomé II arrebentou a muralha de Constantinopla e a cidade caiu na mão dos turcos otomanos. O novo império fechou a passagem para o Oriente, os portugueses contornaram a África pelo mar e "acharam" o Brasil pelo caminho.

Há cidades cosmopolitas mas nenhuma como essa, que já teve três nomes e se assenta sobre dois continentes.

Hoje é uma metrópole imensa, cheia de problemas urbanos. Por um lado, parece resistir às transformações do mundo moderno, com seus mercados, pontes e mesquitas. Mas por outro, talvez seja a cidade que inventou o próprio mundo moderno.

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Moscou, Rússia

Esta é a capital de um império que produz armas atômicas e passos de balé. O gigantismo do território russo e os dramas da história acabaram criando uma cidade monumental, mas incapaz de esconder por completo dos visitantes seus momentos de delicadeza. Cúpulas multicoloridas em forma de cebola convivem com a brutalidade de imensos blocos monocromáticos.

Moscou inspira sentimentos contraditórios. Os períodos históricos se sucedem despertando amor e ódio, mas nenhuma indiferença. Seria tudo muito cruel não fosse o talento desse povo para as artes, para a ciência, para a beleza e para a graça.

Pode-se gostar ou não. Em todo caso, é preciso respeitar um país que ergue monumentos a seus poetas. Tuca Vieira folha.com/hipercidades

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Pequim, China

Se você dispuser de apenas 40 minutos para conhecer uma cidade, vá ao mercado ou à estação de trem de Pequim. Esses lugares são como o orifício de uma ampulheta, por onde todos acabam passando uma hora ou outra.

Aqui na estação, fico imaginando o que faria Marco Polo se tivesse à disposição esses trens de alta velocidade, que cruzam o país em poucas horas. Talvez achasse rápido demais, lamentando a passagem das cidades sem tempo para tomar notas.

Hoje, há quem vá ao Oriente para uma reunião de negócios, sem tempo para mais nada. Viajamos mais, mas vemos menos. Milan Kundera fala de um elo secreto entre lentidão e memória, onde "o grau da velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento".

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Tianjin, China

Passei poucas horas por aqui. Desci na estação, dei uma volta pelo centro e foi tudo. Diante de tamanha superficialidade, peço desculpas: não posso dizer muito. Vi essa gigantesca e vazia estação de trem, como que à espera de uma multidão adormecida. Vi uma mesquita verde, shoppings, prédios iluminados, o rio sinuoso e uma ponte imitando Paris.

De resto, posso apenas imaginar. Imagino que as pessoas daqui queiram uma cidade bonita e eficiente, onde os deslocamentos sejam antes um prazer do que um problema. Imagino que gostem de viajar, de ir ao cinema, de comer bem e de fazer amor. Imagino que queiram trabalhar e ganhar dinheiro. Imagino que alguns de seus desejos serão atendidos, outros não.

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Chongqing, China

Não se preocupe. Eu também nunca tinha ouvido falar dessa cidade até há pouco tempo. Mas o fato é que ela existe, é imensa, estranhamente atraente e importante. É a cidade que mais cresce neste país que não para de crescer.

O cenário é dramático. A cidade ocupa um terreno de topografia acidentada, no encontro do rio Jialing com o Yangtsé, atravessados por diversas pontes. Os edifícios e a densa malha urbana ignoram os desníveis do terreno, de modo que às vezes o décimo andar de um prédio está no mesmo nível do térreo de outro. Imaginem Manhattan transposta para o Grand Canyon.

Há algo de ficção científica no ar, como se o improvável futuro imaginado no passado tivesse finalmente se tornado realidade.

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Guangzhou, China

Coloque aqui a ponta seca do compasso, abra um raio de 100 quilômetros, gire e complete a circunferência. Dentro deste círculo que você acaba de desenhar vivem cerca de 60 milhões de pessoas. Guangzhou, Shenzhen, Zhuhai, Hong Kong, a gloriosa Macau e outras cidades situadas neste recôncavo da baía onde deságua o Rio Pérola formam a maior aglomeração humana da história.

Caos? Atraso? Pobreza? Pelo contrário: ordem, prosperidade e muita riqueza. As pessoas não se juntam dessa forma por acaso. Essas cidades, com seus negócios, universidades e indústrias são como imãs poderosos atraindo pessoas de todas as províncias do país, que tornam esse imã ainda mais forte, atraindo ainda mais gente. Até quando?

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Xangai, China

Não basta criar um novo país. Será preciso criar também a nova imagem deste país.

O velho palácio imperial com a foto do líder comunista no portão já não dá conta de representar as ambições da nova geração e será substituído pelos arranha-céus futuristas de Pudong, exibindo riqueza, velocidade e sofisticação.

E este novo cartão-postal será fotografado à exaustão.

Milhares, milhões de fotografias serão produzidas a partir do mesmo gesto: o braço esticado, a câmera voltada para o próprio rosto, a cidade às costas.

O ato do sujeito que vai a lugares distantes e fotografa a si mesmo, ou que fotografa as coisas sem nunca vê-las, é um fenômeno-chave, me parece, para entendermos o século XXI.

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Shenzhen, China

Esta é a cidade que surgiu do nada, sem passado e sem memória, modelo para este país que tem os olhos voltados para o futuro.

Aqui, o café da esquina, que um dia simbolizou o espetáculo da cidade moderna, é uma franquia genérica frequentada por adolescentes entediados com o rosto colado à tela do celular.

Caffè Latte, Mocha e Frappuccino são os combustíveis dessa multidão que um dia vai conduzir essa nação poderosa.

Há contradições em toda parte.

Este mesmo país que enriqueceu e logrou sair do atraso em que se encontrava, tirando milhões de pessoas da pobreza, agora parece embarcar num alarmante projeto de futuro que consiste em transformar todas as cidades num único e gigantesco shopping center.

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Hong Kong, China

O elevador é uma invenção humana de enorme impacto, embora não disfrute do devido reconhecimento.

Essa máquina de erguer coisas e empilhar gente revolucionou as cidades, que agora crescem para cima e não apenas para os lados. É especialmente útil onde há muita gente e pouco espaço, como aqui.

E não é à toa que a cidade é tão disputada. Em poucos segundos, o cidadão espremido em seu apartamente toma o elevador, desce ao nível da rua e encontra promessas de trabalho, prazer, beleza e dinheiro.

Restam poucos letreiros de neon que um dia deram fama à Hong Kong. Mas as luzes vermelhas refletidas no asfalto molhado ainda ilustram bem a melancolia de uma cidade que promete muito mas entrega muito pouco.

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Osaka, Japão

Hotéis-cápsula, esteiras giratórias de comida, escadas rolantes. Máquinas de vender brinquedo, máquinas de café e de pedir comida. Máquinas para pagar o estacionamento e o ônibus. Jogos eletrônicos, e computadores. Incríveis máquinas para o transporte das pessoas. Máquinas de trocar dinheiro para você poder usar as outras máquinas.

Escondida numa rua estreita há também uma máquina onde se aluga toalha e sabonete, e se compra o bilhete de entrada para o banho público. Ali dentro, os homens, todos nus, se movem lentamente e tomam o tempo necessário para se lavar. Há banheiras de água quente e fria, um espaço para se ensaboar e uma área comum onde assistem televisão, leem jornal e conversam entre si.

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Tóquio, Japão

A maior de todas as cidades não tem apenas um centro, mas vários, que se conectam por uma notável rede de trens aéreos e subterrâneos.

Se as cidades em geral possuem uma malha urbana radiocêntrica (como uma teia de aranha) ou ortogonal (como um tabuleiro de xadrez), Tóquio parece se assentar sobre uma matriz rizomática, onde qualquer ponto se conecta a qualquer ponto, sem começo nem fim, sem entrada nem saída.

Do alto, se espalha até onde a vista alcança e para além, como se todo o planeta fosse coberto por este único tecido urbano infinito. Imagine Daca, Moscou, Jacarta, Tóquio, Los Angeles e Nairóbi, todas unidas numa única conurbação, correspondendo, cada uma delas, a uma estação do metrô.

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Manila, Filipinas

Aqui o Museu Nacional está de pé e exibe, entre outras coisas, objetos encontrados no naufrágio do San Diego, galeão espanhol que afundou em 1600 próximo à baía da cidade. Vasos, porcelanas, canhões, cordas e um belíssimo astrolábio provocam a imaginação com histórias de porto, piratas e tesouros escondidos.

Mas se em nossa fantasia a cidade é inspiradora, a realidade é muito dura.

Os bombardeios da Segunda Guerra Mundial arrasaram quase toda a área central e destruíram inclusive Intramuros, a antiga cidade espanhola rodeada por uma muralha. Aos poucos foi reconstruída e não parou de crescer, desordenadamente, acompanhada dos problemas urbanos habituais: trânsito, poluição, barulho e violência.

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Jacarta, Indonésia

Quase não há turistas estrangeiros nessa cidade. Entende-se. Afinal quem quer perder tempo nessa imensa urbe barulhenta, suja e poluída, cujo trânsito beira a insanidade, quando se pode visitar praias lindíssimas espalhadas pelas 17 mil ilhas do arquipélago?

Esses turistas, no entanto, não terão o prazer de conhecer o velho bairro holandês, de subir nas alturas no Monumento Nacional, de aprender sobre a história da independência contada pelos dioramas no museu, de visitar a mesquita modernista capaz de abrigar 200 mil fiéis, de comer dim sum no velho bairro chinês de Glodok e, sobretudo, de conhecer esse povo gentil e tranquilo, apesar de todas as dificuldades que a cidade lhes impõe.

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Bancoc, Tailândia

Siam Square é um aglomerado de shoppings conectados por longas passarelas suspensas sobre as ruas. São imensos edifícios climatizados onde se encontram, além de lojas de luxo e intermináveis praças de alimentação, labirintos de quiosques com os mais absurdos acessórios para celular.

Embaixo, carros, ônibus, táxis, tuc-tucs e motos avançam mais lentamente do que sugere o cenário futurista. As passarelas acessam o Skytrain, o metrô de superfície, que leva a lugares como Talat Phlu, Mo Chit e Nana

Ali, sob o denso calor úmido, há pobreza, juntas militares, lojas de conveniência, budas dourados e imensos painéis com a fotografia já desbotada do novo rei.

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Fotos e textos: Tuca Vieira / Introdução: Ricardo Ampudia / Infografia: Simon Ducroquet / Design e Desenvolvimento: Thiago Almeida, Simon Ducroquet, Rubens Fernando Alencar, Pilker e Angelo Dias / Coordenação: Thea Severino e José Henrique Mariante